Às vezes, ser assaltado não é uma violência, é só um desaforo. E, no meu caso, foi também um favor que o assaltante me fez.
Vinha do balezinho pela rua do meu bairro, bem despreocupada e um pouco morta da aula, com a conversa sobre reagir ou não reagir num assalto ainda fresca na cabeça. Trocávamos experiências enquanto desfazíamos coques e descobrimos que não sabemos nada a nosso respeito até que uma situação limite se apresente.
Claro que eu estava em um clássico episódio da síndrome dos narizes azuis e vinha freneticamente digitando no celular em 3 chats diferentes. A rua estava bem calma e escura como sempre, e só o meu narizinho brilhava com a proximidade da telinha. De vez em quando, ao sofrer um episódio desses, tropeço. Mas também já levei muitos encontrões de pessoas sofrendo da mesma síndrome.
Quando cheguei a duas esquinas de casa, estava com um meio sorriso no rosto por uma graça qualquer que estava sendo compartilhada naquele momento entre Guarujá, Ponta da Praia, Canal 1 e Canal 3 num chat coletivo de amizade bem diversa. Parei pra esperar o sinal. Não raro, o sinal passa por todas as fases umas duas vezes enquanto a digitação segue.
Eis que, muito de repente, uma moto se aproxima e o cara puxa o celular da minha mão. Minha primeira reação foi: “não tô entendendo”. Minha segunda reação foi: “filho da puta”. Minha terceira reação foi: “se eu tivesse uma 380 acertaria bem no pneu e ralava o joelho dele” (assumindo como verdade que eu acertaria o tiro). Minha quarta reação foi: “vou ali no shopping pegar outro chip e comprar outro celular”.
No intervalo entre essas reações todas, ainda percebi que a moto não saiu em muita velocidade, como seria de se esperar, mas que ensaiou uma parada, inclusive. O motivo me fez rir: eu tinha um Nokia E5. Fiquei pensando que o cara devia estar me seguindo desde a Pedro Lessa e sabia que eu estava desatenta do movimento ao redor e que a oportunidade se faria. O que ele não imaginava é que eu não digitava num iPhone. E quase vi ele voltando e me devolvendo o telefone e, talvez, me xingando um pouco: “Sua louca! Que porcaria de teclado qwerty real é esse com essa telinha de 2 polegadas? Não vale 10 reais na boca do crack!”
E ainda rindo um pouco, fui tomada de certo pânico. Engana-se quem pensa que temi por minha integridade física. Meu pânico, que chegou a me causar uma certa náusea, veio acompanhado da realização do fato de que eu não tinha certeza do conteúdo do meu celular naquele momento. Minhas contas de email, redes sociais, todas abertas… Meu Skype e meu Whatsapp conectados… Minhas fotos e áudios… Aimeudeusdocéuinteiro, minhas fotos… Me senti pelada no meio da rua. Tenho meus pequenos segredos sujos. Deliciosos segredos sujos. E quem nunca mandou uma fotinha safada ou recebeu um áudiozinho de putaria que atire a primeira pedra.
E, meio em desespero, tentava rememorar se tinha conseguido naqueles dias fazer algo que sempre faço: deletar, deletar e deletar… Eu sou bem obsessiva com arquivamento, perco bastante tempo arrumando arquivos digitais, passando fotos daqui prali pra ter tudo numa pasta só. E consegui me tranquilizar pensando que tinha apagado tudo que poderia causar um evento Carolina Dieckmann na minha vida, sobrando só uns áudios que eu não queria partilhar com ninguém, afinal, as palavras eram só pra mim… Fiquei um pouco triste… Realmente, tinha umas mensagens que queria ouvir de novo quando a saudade apertasse…
Descobrindo então que nada saiu da empreitada, imagino o cara jogando celular na sarjeta e o caso encerrado. Cheguei na loja da operadora e tudo se resolveu em pouco tempo (esperei mais pelo atendimento do que o tempo que levou a tomada das providências).
Claro que não consegui um celular que não fosse touchscreen. Mas como meu avô, me recusei a ceder à modernidade e não comprei um novo aparelho. Decidi procurar um celular de velho, com telinha e tecladinho. Me irritam corretores ortográficos e teclinhas virtuais que ficam grudadas umas nas outras e não obedecem a dedos com unhas compridas. Achei. Em meio a intermináveis trocas de senhas e bloqueios, achei um celular novo e inutilizei o antigo para sempre. Não perdi minha agenda, não perdi fotos, nem músicas. Perdi uma voz, mas será que já não era hora?
Mas no outro dia de manhã, na hora em que saí de casa com aquele vento frio na cara, o sol se manifestando devagar, o mar com ondas meio mexidas, eu percebi exatamente o que ganhei. Eu levantei a cabeça, meu nariz estava resoluto apontando o caminho em frente. Eu via a cara das pessoas, cansadas, felizes… Eu ouvia os barulhos do dia acordando. Eu percebi que sentia um pouco de frio, que meu pé esquerdo ainda doía um pouco. Eu conversava comigo mesma e minhas mãos estavam livres. Experiência transcendental.
Valeu, moço da moto, por levar minha conexão por uns dias e forçar uma circunstância onde revi o mundo com outras cores e por trazer de volta pra minha pauta o debate interno que me acompanha desde o telefone fixo: quão insuportável me é a ideia de alguém me procurar e não achar… Quanta carência precisa ser suprida por mensagens, telefonemas, recados, postagens… Que urgência de laços, vínculos, palavras, acontecimentos existe em mim… Por que não silenciar bipes, chats, e se bastar? Focar em uma tarefa e arrancar o máximo de prazer dela e esperar outro momento pra compartilhar isso com os outros. Criar coragem enfim pra não ser encontrada sem que isso seja exatamente perder uma oportunidade de um encontro; mas que seja um momento de paciência, de marinar os desejos, de ser surpreendida por uma presença física inesperada, de andar mais devagar e atenta ao que me vai por dentro. E confiar. Confiar que quem quer te achar, te acha até na lua, sem sinal e off-line.
Fevereiro
Há 17 anos


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