Tenho apanhado muitos dos meus
amigos. Os tapas são curiosos… No espaço curto de uma semana, eu soube que não
sou fotogênica, nem bonita, que eu não tenho uma postura feminina, que eu me
visto e calço mal e que eu sou controladora e professoral.
Não posso mentir quando encho a
folha em branco senão as palavras ficam de mal comigo e eu morro de medo de
ficar sem inspiração; já passei longos períodos sem escrever, é como se eu
estivesse sufocando devagar. Portanto, confesso que estou um pouco mexida. A
única coisa legal que escutei foi: “… mas você é sexy…” como se isso fosse
algum prêmio de consolação.
E, no fim, eu nem sei se isso é
tão bom assim considerando o que se desdobra dessa colocação. Assunto pra
outros escritos que venho remoendo…
De qualquer maneira, aqui estou
eu. Inadequada, fora de época, meio masculina; porém sexy. Mas o que me põe a
pensar não é o conteúdo da fala das pessoas. Esse eu venho desdobrando há
muitos anos na terapia e não tem nada de traumático. Traumáticos foram talvez
(e bem talvez, meeesmo!) os eventos que fizeram com que eu só depilasse minhas
pernas aos 19 anos, gostasse de coturnos, tivesse sempre uma lição na ponta da
língua pra enfiar goela abaixo de alguém, não soubesse como usar uma estampa e
fotografasse (um pouco, só um pouco) melhor atrás da lente do que na frente
dela. Ter essas características não é bom, nem ruim. Faz parte da minha
história construída, pra ser bem psicóloga logo às 7 da manhã.
Não. O que tenho pensado é: que
coisa em mim põe em marcha o sentimento ou inclinação de resolução de problemas
nos meus amigos. Deve ter algum movimento que eu faço, alguma coisa em mim, que
faz com que as pessoas próximas e queridas queiram me consertar. Eu desconfio
que eu pareço frágil.
E, se sou frágil, preciso ser
protegida, guiada, encaminhada. Vestida, posicionada, aconselhada. Me sinto
frágil. E quando me sinto assim, fico exposta. Me sinto exposta. Como se
andasse sem roupa alguma em praça pública, onde todos podem observar, apontar,
sugerir. E usar também da minha exposição pra não se sentir tão exposto como
frequentemente a gente se sente nas relações.
Talvez eu esteja abrindo a porta
do meu reino mais do que devia. Talvez eu não esteja protegendo os meus
tesouros com cuidado. Talvez eu esteja me expondo demais onde não precisaria e
sem repertório pra me expor na situação exata.
E, talvez, as pessoas ainda usem
de uma operação infantil, o “mãe, mas ele também fez!”. Quando se aponta no
outro coisa qualquer, parece um esforço grande pra tirar o dedo da própria
dificuldade. Não duvido que as intenções dos meus amigos são as melhores. Não
duvido que me queiram muito bem. Não duvido mesmo que estejam cobertos de
razão.
Mas continuo muito intrigada.
Será que ando convidando gente demais pra minha intimidade e dando pouco limite
na atuação desse povo? E mais: será que não acaba nunca essa minha adolescência
onde eu não consigo convencer ninguém que sou uma mulher de 36 anos? Nem a mim?
Eu, não fotogênica, nem bonita, mal vestida e mal calçada, controladora e professoral... :)



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