mas ontem, o sol bateu na minha cara quando a vida já tinha começado faz tempo e eu tava preguiçosa, ainda vivendo o domingo sem fim... abri o olho pras tarefas do dia sem nenhum peso nos ombros. como desde cedo eu precisava de um momento de paz pra pensar em encontros, despedidas, e em como uma decisão no detalhe pode mudar o rumo das coisas, decidi cumprir rapidamente minhas obrigações e então sentei com freudinho pra ver um filme.
não só pelo gerard butler (que já vale a pena qualquer minuto), mas pela beleza da água, e pela ternura que mal se adivinha, chasing mavericks foi um descanso pros olhos. as ondas do mar da califórnia batendo nas pedras (dessa vida) contaram toda a história. não é só um filme de surfe, é um filme de pai. bem apropriando pro dia dos pais sem pai.
eu ainda procurando o meu, o menino encontrando o dele no vizinho. eu tinha razão quando dizia ainda um dia antes a falta que me faz essa ideia de pai. não pela presença física. já faz tantos anos, 23 pra ser exata, que vivi mais tempo da minha vida sem pai do que com. e pra longe de isso ser uma dor, é um desafio. por vezes, tenho dúvidas que me assaltam, densas dúvidas, e uma vontade de pedir um conselho. ou me servir de um ensinamento qualquer que, hoje, nunca me vem pronto e confortador. tenho que descobrir sozinha, tropeçando e me atrapalhando pelo caminho.
os detalhes são singelos. o surfista velho de mar diz que "Todos nós viemos do mar, mas nem todos somos do mar. Aqueles de nós que são filhos das marés, devemos retornar a ele várias e várias vezes até que não voltamos mais, deixando pra trás apenas o que tocamos ao longo do caminho." e é isso que ele ensina ao menino que o escolheu como pai. porque o menino precisava aprender como chegar naquele lugar difícil e compensador, na vitória. o menino queria surfar a onda gigante. e escolheu quem o levaria até lá. o pai escolhido não se deu conta da tarefa logo de cara, mas ela foi se revelando aos poucos.
tudo faz muito sentido pra mim nessa parte do meu caminho. como se eu precisasse ter certeza de onde vim e onde quero chegar, e que tipo de marca pretendo deixar. às vezes, olho em volta e não encontro esse ponto de pertença e percebo então que preciso definir o meu só com as lembranças e as coisas que nem percebo que estão como traço gravado em mim.
e tendo encontrado pais sem pais, pais de meninas, pensei nesse domingo que passou: que esses moços saibam a imensidão da tarefa de ver crescer uma mulher nesses tempos ainda tão difíceis pra nós e o quanto vão fazer falta se não estiverem mais lá. que esses pais de meninas saibam que apoiar uma mulher não significa carregá-la ou impedir que se machuque mas significa ficar em silêncio observando atento pra oferecer o braço forte quando o peso for demais. que esses pais saibam que são demais os perigos dessa vida (o poeta não estava errado) e que um dia nós voltaremos pedindo um lugar pra descansar. que esses pais saibam que quando a gente chorar ou surtar por um motivo ininteligível não é preciso encontrar o motivo (esses pragmáticos pais) e sim aceitar a manifestação. que esses pais saibam, como talvez o meu soube um dia, que nós vamos seguir com eles, sem eles, mas que, de repente, numa curva qualquer, a gente descobre aquele pedacinho que não é nosso, mas que foi deixado ali pra fazer com que a gente saiba pra onde voltar.
porque as imagens são tão lindas...



Nenhum comentário:
Postar um comentário