caí nessa madrugada. eu tento muito não cair. não tropeçar, não me desequilibrar. tenho muitos momentos não sóbrios na minha vida. eu gosto mesmo é de um bom álcool. e redobro (ou pelo menos, acho que) a atenção quando ele começa a agir nos meus sistemas.
e aí, eu caí. de bunda no chão, no meio do bar. e eu estava sóbria. num lugar apertado e cheio, com a maioria das pessoas um pouco alteradas, eu tomei um empurrão da moça do lado e caí. em cima de outras moças. não me machuquei. mas morri de vergonha.
estar no chão onde todos estão de pé, ter todos os olhares voltados pra mim como se tudo tivesse paralisado pra acompanhar aquela queda, me deixou exposta. algumas pessoas me ajudaram, outras tiveram raiva, outras nada fizeram. e foi aí que eu morri um pouco.
as pessoas me julgaram. atribuíram a mim a falha. e eu percebi o quanto isso me dói. voltei pra casa tão rápido quanto pude, e o tombo não me saí do peito. foi a falha. é a falha que me machuca.
passo minha vida falando com meus pacientes sobre culpa. sentindo com eles a culpa que carregam pra então transformar a vida. e eu voltei arrasada pela culpa pra casa. cada passo que eu dava em direção à porta era uma dor. eu estava com vergonha de ter caído, ainda que a "culpa" não fosse minha. eu disse pra moça, quase chorando: você me derrubou! ela: desculpa, eu não vi... mas o mal já estava feito, eu já tinha caído na frente de todo mundo (inclusive DELE) e o bar não parou seu movimento e sua música pra eu dizer: gente, eu não tô bêbada!!! a moça me derrubou!!!
e foi isso que me pôs a pensar sobre mim. eu PRECISAVA dizer que não estava bêbada, que não estava socialmente inadequada, que não tinha errado, que era uma boa moça. a "culpa" tinha que ser de outro alguém, eu estava certa! e eu não conseguia nem pensar em desculpar a moça, porque aos olhos dos outros eu carregava a culpa do tombo. como tiraria dela uma culpa que eu trouxe pra mim no primeiro segundo???
a falha pesava em mim como tonelada e vim me arrastando pela calçada da praia olhando as ondas cumprirem o seu propósito.
e alguns podem argumentar com a razão: mas, sua louca! você acabou de dizer que a falha não foi sua, que a moça derrubou você e mais ou menos assumiu a culpa pela falha quando interpelada... e isso é o mais curioso...
por que, por que, peloamordedeus, carregamos toda a culpa do mundo nas costas??? falhamos e não assumimos responsabilidades, só sentimos a culpa eterna (talvez a do próprio pecado original...). dostoiéviski dizia que se deus não existisse, tudo seria permitido. quando a gente bebe, deus some. quando deus fica com cara de superego (só posso tratar assim da questão posto que sou agnóstica e não acredito em deus), e o álcool coloca ele pra dormir mais cedo, a gente se expõe. nunca gostei de ficar bêbada, sempre gostei de beber. não gosto de sentir que minhas censuras rebaixaram e que posso "falhar". ser ridícula, enrolar a língua, falar merda, FAZER merda, ligar praquele que não deveria mais existir no contexto, me sentir carente, pedir arrego. me sinto frágil e exposta. imperfeita. e o imperfeito é coisa mais bela dessa vida. e aproveito muito pouco.
me falta (e acho que falo aqui de mim, mas de um tanto monte de gente) a capacidade e a leveza de rir de mim mesma. poderia aceitar a imperfeição. poderia aceitar que tenho um metro e meio e posso ser facilmente derrubada. que não sou forte em cima dos saltos pra aguentar o tranco e continuar de pé. podia não ser tão orgulhosa a ponto de pensar que estar de bunda no chão do bar me torna menos humana.
ao contrário, nietzsche deveria ter vindo em meu socorro, sem contexto algum, e me lembrar que o humano, demasiado humano, é cair de bunda no chão. e ser espírito livre o suficiente pra rir da queda. olhar mais longe e perceber que a falha não precisa ser escondida e nem explicada ou justificada a tantos que não compartilham do caminho que EU estou fazendo.
que um dia, eu arrotei, mostrei a calcinha, ralei o joelho, não passei naquela prova, tive diarréia, bebi mais que aguentava, implorei afeto, não tive a mínima ideia da hipótese diagnóstica de um paciente, não soube que filme ou livro era aquele que se falava, caí da bicicleta, errei o passo no meio do palco, perdi a sola do sapato, caí no meio torto. na frente DELE.
que eu liguei e não fui atendida. que ele não me quis. e não porque caí de bunda no meio do torto, ou não cozinho bem. mas porque eu não posso ser unanimidade. não posso ser perfeita. a número 1 em todas as coisas, sempre adequada e íntegra. às vezes, estou aos pedaços. digo coisas absurdas e faço avaliações medíocres da realidade. e falho. falho muito. comigo e com os outros. e basta ser responsável pela falha no mundo interno e fazer pazes com isso. e não carregar culpa alguma por ser isso que é belo.
a falha é o que constrói a poesia do mundo. como me pretenderia perfeita?
meu orgulho tá ferido e não quero nem pensar em pisar no torto de novo. mas eu espero que, daqui a algumas horas, a ressaca moral esmoreça e eu saia pra ver o sol. com a bunda meio doída pelo ridículo, com o discernimento meio afetado pelo álcool, com dignidade meio arranhada pela rejeição, mas com a certeza serena de ser o melhor que posso ser e que isso já é muito suficiente. é, inclusive, um privilégio.
Fevereiro
Há 17 anos



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