fulano resolveu ficar com a loucura, ciclano com a vodca, beltrano com aquela que estava mais perto e aquele outro com a namorada.
a moça, engasgada, chocada, teve dificuldades de dormir uma noite. só uma. porque todas as outras eram mandatórias se dormir. as outras noites eram de vida acontecendo. mas aquela uma, aquela noite, não foi dormida.
de tudo muito que fora aprendido até ali, muito serviu mas não resolveu. ficava um buraco no meio do peito madrugada adentro pois o coração é grande demais e nem toda população do mundo encheria aquele espaço em que só cabe um.
quando o dia vinha chegando devagar, a moça tentou mais um pouco. o gato disse: pode desistir agora.
a moça, então, desistiu de tudo. de tentar dormir. de tentar amar. de tentar marcar presença ou argumentar. desistiu de ponderar. com um tanto de preguiça e outro tanto de tristeza, repassando dores e pequenos vícios, desistiu.
tinha medo. a verdade é que teve medo. teve medo de viver a grande ilusão porque já sabia há bons tempos o tamanho dos tombos que se leva quando se é imprudente. e como dói por anos aquele joelho ralado. mas também não teve a coragem necessária pro não completo. inteiro. resoluto. digno e libertador. ficou ali pelo meio do caminho. coisa que não sabia fazer aos 20 anos.
aos 20 anos, tudo era ir. ia. não importava a que preço. ia até o limite até o dia em que aprendeu a passar dele. e se perder. e morrer um pouco. e, por fim, a sentir medo. o medo que preserva, mas que também esteriliza a vida toda.
e, assim, quase limpa, seguiu até a noite em que não dormiu. e teve ânsias de tomar medidas desesperadas. de transbordar. o gato, mais uma vez: sossega essa tempestade, se deixar chover vai ter tragédia.
a moça pensou um pouco melhor e sentiu aquele medo de novo. o medo de se perder dentro do próprio estômago. se decidiu então pela folha em branco, o cigarro solitário, o dia que acordava em indiferença.
o gato, já inquieto, definia prioridades. a moça ainda cansada escrevia até o fim da vida.
o dia chegou, nada trouxe de improvável. tudo muito no seu lugar. e ninguém tinha visto coisa alguma.
o sono chegou. e a moça, na falta de melhor plano, procura até agora palavra qualquer que possa terminar, seja com ponto, vírgula, ou sinal qualquer esse bilhetinho explicativo pra (de?) si mesma.
Fevereiro
Há 17 anos


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