Minhas loucuras passadas

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Falo muito, sou pequena. Reclamo horrores e sou briguenta. Pinto o cabelo de tempos em tempos. Me visto de acordo com meu humor, sou gulosa demais. Gosto de ser casal e ser amiga. Adoro escrever de tudo, cartas e histórias. Amo as artes todas, inclusive aquelas que não consigo fazer. Sou a favor das diferenças, sempre. Olhos castanhos, unhas pequenas. Tímida demais pro meu gosto.

sábado, 26 de julho de 2014

Dança Joinville mais uma vez

é sábado. é sábado de festival. as notícias chegam do sul. com o frio, o vento, a chuva. todo mês de julho, fico diferente. fico olhando pra vida e ela olha de volta pra mim. a gente conversa bem baixinho e eu digo a ela que estou bem. que construí muitas coisas, que amei muito. que aprendo uma parada nova todo dia. e lembro pra ela que ela aconteceu linda pra mim a cada inverno.
joinville, a cidade das flores, com a qual não tenho laço de sangue nenhum, foi minha casa por 10 dias por tantas vezes. tanta gente passou e não ficou pro próximo inverno. tanta gente que não só passou, como parou, curtiu e decidiu ficar umas temporadas. e aquelas pessoas que ficaram. pra sempre.
o festival de dança de joinville significa também a dança em si pra mim. tem muita gente que dança diferente. que foi pro festival e ele nada acrescentou. cuja trajetória é diversa. mais acadêmica, mais científica. mais artística, menos competitiva.
eu danço só pra mim. não é minha profissão. não é o meu projeto, nem meu trabalho. não é também a minha diversão embora risada seja o que não falta quando erro um passo qualquer. não é meu jeito de ficar saudável embora eu esteja melhor hoje do que há 10 anos atrás quando retomei as aulas. eu danço só pra mim. é um dos meus jeitos de conversar com a vida. por isso, não é nada disso e é tudo isso aí.
e como dançar pra mim é fazer versos com a vida, o festival de dança de joinville foi lugar de verso e prosa. fui a alguns festivais, cada um do seu jeitinho, no seu clima. mas joinville é o quintal da casa. eu fui tão feliz, me senti tão confusa, me coloquei em um ou dois apertos, arrisquei, perdi a compostura, achei serenidade. tudo isso em joinville. chorei na feira da sapatilha, me surpreendi no cau hansen. me aborreci. e aprendi umas lições.
em joinville.
e hoje, que é sábado de festival, meu pé reclamou. meu pé esquerdo, que nunca me deu problema, começou a doer demais ontem e hoje tô manca! vê se pode! ele tá reclamando. ele queria andar de estande em estande, ele queria subir as escadas ou a rampa do cau hansen, ele queria correr do mueller ao cidade das flores pra não perder a apresentação. ele queria dançar mesmo sem estar em palco algum. ele queria sofrer no salto com os dedos gelados na baladinha. ele queria...
vou levar ele agora no ps pro ortopedista receitar um antiinflamatório. mas vou conversar com ele. explicar que o tempo passou. que a vida mudou e que não dá pra largar tudo em 5 minutos e se jogar dentro do catarinense e vê-lo fazer a curvinha da rodoviária e sentir o coração já agitado. vou ponderar com ele que fique sossegado, que esse ano não deu, mas no próximo, a dança ainda não vai ter acabado.
porque dançar é só pra mim e pra ele. e sempre vai ter uma cortina pra abrir, uma lágrima pra cair, um tombo pra levar, um figurino pra esquecer, um erro pra ser cometido quando todo mundo tava olhando bem ali.
e a cada inverno, a música começa de novo, as flores estão a postos e os pés podem inventar.
sempre vai ter uma dança que ainda não dançamos.
Imagem: Renata Ferla

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