Agora que a copa acabou e eu não
tô ganhando nada pra escrever as coisas que eu escrevo, vou falar. Tem um monte
de coisas que a gente pensa, e posta, e lê, e repensa quando vive (de alguma
forma) um grande evento. Eu andei pensando umas coisas.
Dizia umas semanas antes da copa
que o Brasil não sabia ganhar. Eu tenho essa impressão desde a copa de 1998. E
eu acho que tem muito a ver com o jeito como nós nos formamos em função da
cultura que partilhamos e continuamos então legitimando através das nossas escolhas
como indivíduo ou grupo. Temos umas coisas bem legais no nosso jeito de ser.
Mas temos outras que nos colocam meio fora de rumo. No futebol, creio que o
desvio acontece por algo bem simplório: no Brasil, ser atleta não é trabalho.
Se o cara pratica um esporte midiático e se destaca financeiramente, é
celebridade. Se o cara pratica um negócio que não dá grana, como um pentatlo
moderno por exemplo, é um sonhador que, quando acordar vai ter 30 anos e não
vai ter onde cai morto. Eu tenho pessoas próximas de mim que são atletas profissionais
e a vida é dura. Assim como ser bailarino, ser atleta é sentir dor. Dor
constante por pelo menos uns 15 ou 20 anos de vida profissional. Portanto não
acho que o salário de um atleta profissional é alto. Não são eles que ganham
muito, eu que ganho pouco. O que parece não encaixar na equação é a visão que
brasileiros têm de que artes e esportes não são profissões sérias. Aí, fica
mesmo difícil traçar um objetivo (ganhar a copa do mundo, por exemplo) e
trabalhar pra alcançar. Tal como uma equipe de vendas precisa bater uma meta,
nossa seleção precisaria encarar esse evento como compromisso. Pra quem assiste
é espetáculo, pra quem está no “palco” é trabalho.
Penso então que a queridíssima
Alemanha mereceu toda a minha torcida. Tomei posição favorável à Alemanha
porque ela tinha um plano de trabalho bem estruturado e adoro ver competência
coroada. Com o louro da vitória. Jogar futebol na Alemanha é trabalho. O fato
de o Schweinsteiger ganhar mais do que o Hans que trabalha na fábrica de
cerveja não diminui o Hans e nem enaltece o jogador. Sim, existe um valo
midiático em jogar bola. Mas os dois me parecem trabalhadores sérios. E falta
ao Brasil seriedade. Um sem número de vezes, participei de reuniões de trabalho
que começaram com horas de atraso, em que a descontração brasileira ocupou
metade do tempo com piadas, em que a falta de uma pauta clara e regras de ordem
fizeram com que dali nada saísse de produtivo. Tal como a seleção brasileira
que se apoia nos seus 10% de talento (inegável) mas se esquece de trabalhar os
90% que faltam para alcançar o sucesso.
E o sucesso não é só a vitória
porque, óbvio, só há lugar pra um vencedor. Mas é importante ter feito um bom
plano e perseguir o objetivo até o final. O que me parece é que o Brasil sempre
se recosta na floresta, no jeitinho, na abundância de água, na sensualidade, e
em sei lá que outras mil coisas vistas como grandes qualidades que não passam
de características. Nada especiais, devo dizer. Apenas características.
Vamos ficar até 2018 tentando
explicar com especialistas mil (os psicólogos do esporte vêm tendo seu
momento...) por que motivo a seleção brasileira perdeu com placar tão incomum
na sua trajetória. Foi o fulano que se machucou, o cicrano que chorou, o
beltrano que rezou demais e o outro que rezou de menos. Todas essas questões
que a galera resolveu rotular de “psicológicas” precisam ser olhadas com mais
atenção.
É preciso considerar que esportes
e artes são atividades onde a emoção é componente fundamental. Vou me afastar do
esporte um pouquinho e me aproximar da dança pra explicar porque esse parágrafo
não desdiz o que escrevi lá em cima. Quando uma bailarina se veste de Esmeralda
ela precisa de um tanto de dor e sensualidade. Mas para ser Esmeralda precisa
mais. Precisa da menina que desde muito cedo mostrou que não perderia a batida
do pandeiro na ponta dos pés diante de mil pessoas olhando só pra ela. Mostrou
que fazer aulas, estar nos ensaios na hora marcada, fazer o regime necessário
eram encarados como compromisso da profissão que escolheu. Precisa mostrar que
os 10% de talento que ela tem serão sempre acompanhados dos 90% de trabalho.
Sim, é preciso se emocionar pra
jogar bola ou dançar um grand ballet ou compor uma boa canção ou pintar uma
tela maravilhosa ou marcar o ponto decisivo. Se você não aciona outros recursos
além dos cognitivos, dificilmente vai se destacar naquilo que precisa mover
algo no outro. E o futebol precisa mover sim algo no outro. E a dita fria
Alemanha moveu. Os milionários jogadores mostraram seus sentimentos. Eles
choraram emocionados com a vitória. Não pode chorar? Pode, sim. Pode quando
todo o resto já está claro. Pode jogar com o rosto sangrando sem ser clichê ou
piegas. Porque quando todo o resto está claro, o rosto sangrando não fica apelativo.
A seleção podia ter se
solidarizado com o jogador lesionado se o resto estivesse claro. O resto que
não estava claro era o seguinte: é trabalho. Jogar futebol machuca. Não tinha
nada de surpreendente. Assim como eu choro no banheiro depois de uma história
difícil que tive que ouvir trabalhando, o jogador sente dores, fica roxo pro
resto da vida e pode sofrer lesão gravíssima. A gente não precisa endurecer
diante disso, não. Aliás, a primeira coisa que comentei: que lindo ver homens
emocionados. Precisamos de mais sentimento no mundo. Mas o problema brasileiro
é não saber onde cabe cada coisa.
A seleção agiu como uma moça
gostosa: pensando que só “o ser” seria suficiente pra conquistar o objetivo.
Esqueceram que era preciso “fazer”. Ser, entendido como um talento inato, é
imprescindível. Não driblarei jamais como Neymar e não farei fouettés como Ana
Botafogo. E Neymar ou Ana Botafogo são imprescindíveis pra ver acontecer o
futebol ou o balé. Mas não dá pra pensar que ter um e outro se traduzirá em
ganhar a copa do mundo ou montar Giselle como passe de mágica. Aí, é preciso
ser alemão. É preciso planejar, se preparar, ter ao menos 3 planos na manga. É
preciso ter regras e limites. É preciso antever a dificuldade e ter a solução a
postos. É preciso ser alemão.


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