Minhas loucuras passadas

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Falo muito, sou pequena. Reclamo horrores e sou briguenta. Pinto o cabelo de tempos em tempos. Me visto de acordo com meu humor, sou gulosa demais. Gosto de ser casal e ser amiga. Adoro escrever de tudo, cartas e histórias. Amo as artes todas, inclusive aquelas que não consigo fazer. Sou a favor das diferenças, sempre. Olhos castanhos, unhas pequenas. Tímida demais pro meu gosto.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Ainda sobre a Copa

Agora que a copa acabou e eu não tô ganhando nada pra escrever as coisas que eu escrevo, vou falar. Tem um monte de coisas que a gente pensa, e posta, e lê, e repensa quando vive (de alguma forma) um grande evento. Eu andei pensando umas coisas.
Dizia umas semanas antes da copa que o Brasil não sabia ganhar. Eu tenho essa impressão desde a copa de 1998. E eu acho que tem muito a ver com o jeito como nós nos formamos em função da cultura que partilhamos e continuamos então legitimando através das nossas escolhas como indivíduo ou grupo. Temos umas coisas bem legais no nosso jeito de ser. Mas temos outras que nos colocam meio fora de rumo. No futebol, creio que o desvio acontece por algo bem simplório: no Brasil, ser atleta não é trabalho. Se o cara pratica um esporte midiático e se destaca financeiramente, é celebridade. Se o cara pratica um negócio que não dá grana, como um pentatlo moderno por exemplo, é um sonhador que, quando acordar vai ter 30 anos e não vai ter onde cai morto. Eu tenho pessoas próximas de mim que são atletas profissionais e a vida é dura. Assim como ser bailarino, ser atleta é sentir dor. Dor constante por pelo menos uns 15 ou 20 anos de vida profissional. Portanto não acho que o salário de um atleta profissional é alto. Não são eles que ganham muito, eu que ganho pouco. O que parece não encaixar na equação é a visão que brasileiros têm de que artes e esportes não são profissões sérias. Aí, fica mesmo difícil traçar um objetivo (ganhar a copa do mundo, por exemplo) e trabalhar pra alcançar. Tal como uma equipe de vendas precisa bater uma meta, nossa seleção precisaria encarar esse evento como compromisso. Pra quem assiste é espetáculo, pra quem está no “palco” é trabalho.
Penso então que a queridíssima Alemanha mereceu toda a minha torcida. Tomei posição favorável à Alemanha porque ela tinha um plano de trabalho bem estruturado e adoro ver competência coroada. Com o louro da vitória. Jogar futebol na Alemanha é trabalho. O fato de o Schweinsteiger ganhar mais do que o Hans que trabalha na fábrica de cerveja não diminui o Hans e nem enaltece o jogador. Sim, existe um valo midiático em jogar bola. Mas os dois me parecem trabalhadores sérios. E falta ao Brasil seriedade. Um sem número de vezes, participei de reuniões de trabalho que começaram com horas de atraso, em que a descontração brasileira ocupou metade do tempo com piadas, em que a falta de uma pauta clara e regras de ordem fizeram com que dali nada saísse de produtivo. Tal como a seleção brasileira que se apoia nos seus 10% de talento (inegável) mas se esquece de trabalhar os 90% que faltam para alcançar o sucesso.
E o sucesso não é só a vitória porque, óbvio, só há lugar pra um vencedor. Mas é importante ter feito um bom plano e perseguir o objetivo até o final. O que me parece é que o Brasil sempre se recosta na floresta, no jeitinho, na abundância de água, na sensualidade, e em sei lá que outras mil coisas vistas como grandes qualidades que não passam de características. Nada especiais, devo dizer. Apenas características.
Vamos ficar até 2018 tentando explicar com especialistas mil (os psicólogos do esporte vêm tendo seu momento...) por que motivo a seleção brasileira perdeu com placar tão incomum na sua trajetória. Foi o fulano que se machucou, o cicrano que chorou, o beltrano que rezou demais e o outro que rezou de menos. Todas essas questões que a galera resolveu rotular de “psicológicas” precisam ser olhadas com mais atenção.
É preciso considerar que esportes e artes são atividades onde a emoção é componente fundamental. Vou me afastar do esporte um pouquinho e me aproximar da dança pra explicar porque esse parágrafo não desdiz o que escrevi lá em cima. Quando uma bailarina se veste de Esmeralda ela precisa de um tanto de dor e sensualidade. Mas para ser Esmeralda precisa mais. Precisa da menina que desde muito cedo mostrou que não perderia a batida do pandeiro na ponta dos pés diante de mil pessoas olhando só pra ela. Mostrou que fazer aulas, estar nos ensaios na hora marcada, fazer o regime necessário eram encarados como compromisso da profissão que escolheu. Precisa mostrar que os 10% de talento que ela tem serão sempre acompanhados dos 90% de trabalho.
Sim, é preciso se emocionar pra jogar bola ou dançar um grand ballet ou compor uma boa canção ou pintar uma tela maravilhosa ou marcar o ponto decisivo. Se você não aciona outros recursos além dos cognitivos, dificilmente vai se destacar naquilo que precisa mover algo no outro. E o futebol precisa mover sim algo no outro. E a dita fria Alemanha moveu. Os milionários jogadores mostraram seus sentimentos. Eles choraram emocionados com a vitória. Não pode chorar? Pode, sim. Pode quando todo o resto já está claro. Pode jogar com o rosto sangrando sem ser clichê ou piegas. Porque quando todo o resto está claro, o rosto sangrando não fica apelativo.
A seleção podia ter se solidarizado com o jogador lesionado se o resto estivesse claro. O resto que não estava claro era o seguinte: é trabalho. Jogar futebol machuca. Não tinha nada de surpreendente. Assim como eu choro no banheiro depois de uma história difícil que tive que ouvir trabalhando, o jogador sente dores, fica roxo pro resto da vida e pode sofrer lesão gravíssima. A gente não precisa endurecer diante disso, não. Aliás, a primeira coisa que comentei: que lindo ver homens emocionados. Precisamos de mais sentimento no mundo. Mas o problema brasileiro é não saber onde cabe cada coisa.

A seleção agiu como uma moça gostosa: pensando que só “o ser” seria suficiente pra conquistar o objetivo. Esqueceram que era preciso “fazer”. Ser, entendido como um talento inato, é imprescindível. Não driblarei jamais como Neymar e não farei fouettés como Ana Botafogo. E Neymar ou Ana Botafogo são imprescindíveis pra ver acontecer o futebol ou o balé. Mas não dá pra pensar que ter um e outro se traduzirá em ganhar a copa do mundo ou montar Giselle como passe de mágica. Aí, é preciso ser alemão. É preciso planejar, se preparar, ter ao menos 3 planos na manga. É preciso ter regras e limites. É preciso antever a dificuldade e ter a solução a postos. É preciso ser alemão.

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