Minhas loucuras passadas

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Falo muito, sou pequena. Reclamo horrores e sou briguenta. Pinto o cabelo de tempos em tempos. Me visto de acordo com meu humor, sou gulosa demais. Gosto de ser casal e ser amiga. Adoro escrever de tudo, cartas e histórias. Amo as artes todas, inclusive aquelas que não consigo fazer. Sou a favor das diferenças, sempre. Olhos castanhos, unhas pequenas. Tímida demais pro meu gosto.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Gabi entrevista os soropositivos Rafael Bolacha e Silvia Almeida



eu interajo com meu computador como se fosse uma pessoa. acabei de aplaudir, chorar, rir e me indignar nos últimos 40 minutos como se eu fosse a própria marília gabriela conversando com os entrevistados.

numa semana em que estou em inferno astral e questionando profundamente a instituição onde trabalho, a ética profissional dos meus colegas, a seriedade deste país e se já cheguei no meu limite, fui presenteada com esse vídeo que conta com dois soropositivos contando coisas, causos e fazendo considerações sobre aids. como eu adoro uma hipérbole, digo sem medo: a aids é a minha vida. tá bom, vai... uma parte dela. minha vida profissional. eu investigo há muito o motivo pelo qual sou tão apaixonada por uma doença. e já achei todos, sobre os quais não vou discorrer sobre nesse momento.

basta só dizer que eu vi a entrevista e ela me fez voltar ao príncípio. não. trabalhar num centro de referência em cuidado de aids não é só um emprego. é uma carreira. aconselhar para a testagem e comunicar um resultado positivo não é só uma tarefa. é uma missão. estudar a infecção pelo hiv em seus mil aspectos não é só uma necessidade. é uma vontade de conhecimento.

a delicadeza do depoimento, a aspereza das críticas colocadas, a concretude do cotidiano de cuidado de saúde, a confusão emocional do contexto soropositivo, a luta por algo que se acredita. tudo isso tão explícito na presença dos dois.

tantas vezes me vi em dúvida sobre minha atuação. e isso é bom, faz a gente caminhar depois uma avaliação. mas aqui nessas duas histórias eu também sou.

eu sou a pessoa que segura na mão do moço pra que ele não tenha que saber seu resultado sozinho na internet.

eu sou a pessoa que acolhe a dor da mulher que vai perder o marido traidor pra morte e mesmo assim não arreda pé da cama dele.

eu sou a pessoa que, ainda que perplexa, caminho junto com o soropositivo na sobrevivência até que ele descubra que pode viver.

eu sou a pessoa que não alcança o tamanho do medo do paciente de que tudo se acabe em segundos mas que fica firme com ele diante do obstáculo.

eu sou a pessoa que não viveu os tempos difíceis da luta pelo básico mas que pede a todo tempo que me relembrem as conquistas.

eu sou a pessoa que acredita que a diferença se faz no miúdo, como o livro escrito ou a palestra dada.

sobre as colocações tenho muita opinião: receber o resultado sozinho é uma merda. falar de camisinha em relações estáveis é uma tarefa inglória. profissional de saúde falha frequentemente em se colocar no lugar do outro. a vida com aids não é igual à vida sem ela. culpa e vergonha são o que matam a possibilidade de o soropositivo fazer as pazes com suas escolhas. falar de sexo é fundamental. fazer bom sexo é fundamental. pessoas morrem e, por vezes, num triste fim. ninguém está 100% seguro numa relação sexual. responsabilidade é mais importante que fidelidade. tomar remédio pro resto da vida é um peso. paixões e amores não são eternos. minha régua não mede ninguém mais além de mim.

não acho que vou "fazer aids" a vida inteira. mas o tanto que eu fizer será sempre o mehor feito.

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