o calor me obriga a cultivar a preguiça... não tenho vontade alguma de sair do meu ar condicionado pra rua. e em casa, pensei o dia inteiro. me assaltou uma vontade que não me ocorria há tempos. desde que eu fiquei mais "achada" em mim mesma, não senti mais aquela vontade louca de controlar os eventos da minha vida, nem de adivinhar o que se passa na cabeça dos moços por quem eu me interesso. mas hoje, eu tive vontade de ter a habilidade não só de ler os pensamentos, mas também de adivinhar os sentimentos.
tem algo estranho quando, de repente, eu caminhando firme pro meu aniversário de 36 anos me encontro adolescentemente tentando decifrar os moços. desejando que qualquer jogo de adivinhação dê conta de me responder se é "namoro ou amizade". se é putaria, enrosco ou carinho. se é paixão. se pode ir ou se é melhor esperar um pouco. se é pra andar devagar e cautelosa, ou correr como se fosse perder o ônibus. se vai foder ou vai sair de cima.
a verdade é que eu tô confusa. eu não sei direito o que tá acontecendo, muito menos onde me meti. comecei a jogar uns jogos perigosos e, quando eles me colocaram em certo risco, me deparei então com a dúvida: que é isso? se fosse só a necessidade de dar nome às coisas, ficava bem fácil. os nomes tão aí faz tempo: namoro, amizade, casamento, ficada, noivado, lanchinho, pinto amigo (esse nome é bem brega, mas as mulheres usam... depois procuro outro mais legal). seria o caso de escolher um, atribuí-lo de acordo com a situação e encerrar o assunto.
mas a questão é que esses nomes não cabem (e cada vez menos...) nas coisas que eu vivo. e no fim das contas, os nomes acabam não refletindo a natureza da relação em si. portanto, dispensemos os nomes. mas ainda resta a questão. o que é então isso que tá rolando? claro que as pessoas criam muitas expectativas, principalmente nas relações afetivossexuais, e também é cada vez mais claro que boas terapias funcionam quando transformam a relação das pessoas com as suas expectativas. mas isso é um exercício. e não somos perfeitos, nem de ferro, nem tiramos 10 em todas as provas. e tem um dia em que você quer dizer pra você mesma: queridinha, viva o momento, viva o que der pra viver, não pense nem pese muito uma decisão, te joga. mas aí você de fato lembra que é gente e gente projeta, espera, torce, faz roteiro, ensaia conversas e monta estratégias. e toda essa conversinha de gente bem resolvida vai pelo ralo. e até o bom senso sai pela janela e você faz coisas que não devia. principalmente, dá espaço pras fantasias românticas todas parecerem viáveis quando você sabe que não são. dá espaço pra idealizar o encontro e o cara até ele virar um personagem de comédia romântica.
e eu tô tentando não retroceder, não fingir que não me lembro de algo que já aprendi. mas, por outro lado, sem retomar um pouco desse envolvimento, parece que os desejos perdem força, a vida fica sem graça e se perde talvez aquele rush de vida que faz com que seja possível se apaixonar.
tô confusa e tenho um pouco de medo. como diz a keri hilson "I don't wanna make the same mistakes I did, I don't wanna fall back on my face again, I'll admit it, I was scared to answer love's call, and if it hits better make it worth the fall."
talvez eu tenha medo de quebrar a cara e de doer de novo. dá um trabalho do caceta se recuperar de um roteiro que você escreveu e o personagem "criou vontade própria" e saiu tudo ao contrário. e como vejo um monte de gente que a cada aniversário fica mais na defensiva. tenta provavelmente se defender da dor que talvez viria se as coisas "não dessem certo."
e tudo isso não é novidade. mas a questão ainda não foi respondida: afinal de contas, você tá só me provocando, ou tá apaixonado?


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