seria de se pensar que então uma música poderia servir pra mais de um romance, pra mais de um homem. e, em certa medida, até a página 2, até rola. não mais que isso. é claro que faz bem esclarecer que eu não sou musicista, embora tenha aprendido música e tenha crescido cercada por ela. o que me fascina são as palavras porque não consigo viver sem um belo poema. um belo poema emociona. se estiver ladeado ou preenchido por um tom menor, eu choro.
portanto, as palavras que cantaram um momento não cantam outro. até se encontra coisa parecida, um déjà vu é esperado, fulano pode caber certinho naquela música de 1977. mas se ela já tem dono na sua história... ela sempre será daquela página.
e isso se dá sem aviso. de repente, você começa a recitar um poema qualquer e ele toma corpo dentro de você, te leva pra um lugar, um cheiro, uma presença. e pronto. aquela canção tem dono. e eu dizia isso pra kátia hoje na sessão. que eu derramo lágrimas quando escuto algumas coisas. pode ser no rádio, no ipod, no bar, na tv.
e quando penso que não vou mais pregar música nenhuma em ninguém porque meus gostos estão mais ou menos definidos e poucas pessoas ou situações têm merecido um poema... sou surpreendida na curva. tem uma música de 1982 que é um poema lindo do caetano que pra mim era só isso. um poema lindo do caetano. poema que até marcou meus 16 ou 17 anos, uma fase muito caetano que eu tive quando passava muitas tardes sem escola na casa que foi espectadora do meu primeiro amor e primeira dor, na lagoa, sempre com as réstias de sol na madeira escura do chão. mas "queixa" ainda não tinha dono na minha história, porque essa música era coadjuvante.
e que surpresa eu tenho quando, numa tarde nublada, cansada do ritmo da semana, me encontro num lugar que não frequento, quebrando o cronograma de uma sexta, ouvindo o rádio (coisa que raramente faço), caetano me avisa que "um amor assim delicado não devia(s) ter conquistado".


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