e tem aquele dia em que alguma coisa acaba e tudo muda. muda alguma coisa dentro da gente e não tem volta. sempre me lembro da natalie portman dizendo pro jude law em closer: eu não te amo mais. eu gosto muito dessa cena pela crueza. é um dia banal, deitados na cama, de verdade mergulhados cada um no seu mundo, compartilhando um espaço e totalmente distantes, algo acaba. bem ali, diante dos nossos olhos. eu não te amo mais.
e quantas vezes, sofrendo por uma paixão perdida qualquer, eu queria dizer como palavra mágica: eu não te amo mais. mas nada adianta. não funciona. nada resolve a não ser o curso daquela coisa até o fim. e eu acordei hoje com essa sensação: eu não te amo mais. algo acabou.
é bem verdade que outras coisas estão orbitando. acordei gorda. vi umas fotos que fiz e não gostei. fui ignorada, confundida, dei uns foras. tô atrasada e tive preguiça de arrumar a casa e lavar a louça. mas eu não te amo mais.
ontem mesmo senti a grande mudança, ainda mais evidente quando, olhando ao redor, fora de mim, nada tinha mudado. quando você muda num lugar tão lá dentro, naquele lugar no centro de você mesmo que pulsa na boca do estômago, o terremoto interno é tão grande, o abalo tão intenso, que o mundo pára praquilo acontecer. não dá pra ver. as cores ficam as mesmas, as horas passam na mesma contagem, os sons estão na mesma frequência. mas tudo é outra coisa.
eu não te amo mais. a página virou. o capítulo acabou. o personagem não terá novas cenas. ficarão apenas aquelas que foram registradas e que podem ser relidas. mas não serão mais mencionadas as ações desse personagem no presente. ele não é mais relevante pro presente. ele fica como referência de algo que você é. mas não existe mais nesse tempo.
eu não te amo mais. e saí pra fazer outra coisa.
Fevereiro
Há 17 anos


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