e tem um dia de claridade em que a gente percebe com todas as cores como certas coisas se passaram na vida. esse dia tem destaque pra sempre (ou quase) no clipping da nossa vida porque marca uma das milhares ocasiões em que perdemos (e perderemos) a inocência.
mas, peraí? inocência se perde várias vezes? sim. ser inocente é um estado com muitas especificidades. a gente é inocente pra lidar com o chefe, mas pode não ser ao lidar com o namorado. pode ser inocente na relação com o marido e ser muito ligeira pra lidar com contratos do cotidiano (pedreiro, eletricista e que tais).
pois vem daí que eu já perdi minha inocência umas 4 ou 5 vezes, nesses meus 35 anos (ontem na mesa do bar eu me traí e expus meu descrédito em relação aos 36 que chegam: disse que ia fazer 35 anos. será que eu quero fazer mais uns 3 anos de 35? anyways...).
e hoje, mais uma vez. e perder a inocência não tem a ver com receber uma notícia ou ter conhecimento de um fato bombástico que não se sabia até então. não!!! perder a inocência tem a ver com aquele momento em que a claridade se faz mesmo em meio a uma treva qualquer e a gente volta exatamente ao ponto da relação em algo se fez presente mas a gente não estava preparada pra enxergar. e trilha então o caminho todo novamente, se observando a cada passo como espectador, e se transformando em alguém que sabe algo sobre si mesmo.
e hoje eu entendi que fui usada. perceber que fui usada pro alcance de um objetivo alheio sem ter oferecido o recurso que me foi tirado não me doeu, não. pelo menos, não doeu a dor que eu imaginava que sentiria. e foi aí que aprendi algo sobre mim.
aprendi que dois exercícios praticados nos últimos anos, trouxeram resultados; tal como o abdominal revela os músculos em quadradinhos. aprendi que hoje consigo amar as pessoas muito mais como elas são do que como as idealizei. aprendi que nutro menos expectativas sobre a postura do outro. foi a dor que não senti ao me descobrir usada, abusada e desusada numa relação que me revelou a conquista.
mas eu não sou uma máquina de lavar e senti dor. claro que senti. a dor que senti foi aquela de me deparar com uma relação vivida, sobrevivida, gozada, sofrida até o último minuto, até a última gota mesmo; mas que... was not quite there yet.
eu desejava profundamente uma relação. e tive uma. e, pra muito além do protagonista da história, a dor que senti teve muito mais a ver com aquela cara de mais ou menos que a gente faz quando termina de assistir aquele filme que imaginou de outra forma. desde o momento em que pegou na locadora (como já disse, eu alugo dvds na locadora! sou antiguinha...), achou a capa linda, os atores são do time que você curte, o dia está propício, a cerveja está gelada, o prédio tá silencioso, a história promete, o roteiro também... o filme começa a passar na sua cabeça. é tudo excelente. mas o produto que realmente está ali... not quite there yet.
e o mais importante: fui usada, mas não sou vítima. eu fiz um caminho, escolhi algumas coisas, enjoyed the ride. lamento que, pra curtir a relação, alguém tenha que levar alguma coisa minha embora.
e acho fascinante que, dessa vez, eu não tenha perdido nenhum pedaço meu.


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