manifestação. eu me manifesto horrores, bem mais do que devia através de palavras. é que eu falo muito e, segundo o straub, não sou nem um pouco objetiva. não sou mesmo. se estiver escrevendo provavelmente provarei meu ponto melhor do que falando. a propósito do modo como vou me manifestar daqui a pouco às 16 horas, estive pensando. manifestação coletiva não é muito a minha praia. o tempo inteiro colegas da prefeitura me solicitam a presença nas manifestações sindicais e eu... bom, eu não vou. as manifestações coletivas me incomodam porque parece que, estando lá, não tenho voz. esquisito? não. não tenho a minha voz. a minha. tenho uma voz que se mistura na premissa do encontro, mas perco a minha, aquela que, de forma bem pouco objetiva, gosta de falar e falar, e expor no detalhe. na manifestação coletiva, o detalhe se perde e eu sempre fico receosa de que alguma reivindicação ou proposta da lista não tenha nada a ver com as minhas ideias. eu me manifestei coletivamente 3 vezes que eu me lembre, mas deve ter havido mais algumas. a questão é que cada uma das pessoas tem uma agenda bem pessoal ao mesmo tempo que luta junto com outras por algo comum. eu não me movo bem dentro da política partidária e tinha 14 anos na época em que o collor foi impedido de ser presidente. não parecia certo pra mim, na minha pequena realidade de elite, o que estava acontecendo porque um dia nós tínhamos algumas certezas (e a poupança era uma delas) e no outro não tínhamos nada e tinha um moço até bonito fazendo umas coisas que um presidente ainda não tinha feito. bom, eu preciso dizer uma coisa pra vocês. eu arrumei namorado na manifestação. era o limite do meu entendimento do que acontecia e a manifestação era mesmo uma grande festa que conseguiu derrubar o presidente. mas era uma festa.
recentemente, os servidores da prefeitura decidiram pela manifestação coletiva em praça pública. e, de novo, cada um tinha também a sua agenda além daquela que era comum a todos (gente, 1,5% de aumento para 2013 não era possível). eu fui até lá pois achava que deveria fazer greve e não era certo ficar em casa como se feriado fosse.
hoje, algumas pessoas vão tomar a rua pra dizer que querem um bar funcionando. e as críticas estão pipocando naquela argumentação óbvia: com tanta desgraça acontecendo as pessoas vão lutar por um bar? um bar? bom, eu tenho escrito a respeito do apagão cultural em santos tendo como estressor último o fechamento doTorto MPBar. eu vou à rua pra encontrar os amigos, porque hoje está um dia bonito, porque boas ideias surgem de um encontro com pessoas. o que penso sobre o que está acontecendo já registrei. e, talvez, sejamos pessoas da classe média (eu mais pra baixa, desde que o prefeito determinou 8% de aumento no mesmo mês em que meu aluguel aumentou 8,29%), querendo diversão. minha voz, aquela que é só minha, me diz que já andei nuns lugares sofridos e já conheci histórias difíceis e uma vez ouvi de uma moça que o dia mais feliz da vida dela tinha sido um em que tinha sobrado dinheiro pra tomar o ônibus até a praia de santos com o marido e os dois filhos e lanchar na areia biscoitos recheados e refrigerante. a vida dela era uma merda pra muitos, apanhava do tal marido, as crianças provavelmente não saberiam ler e escrever ao sair do primeiro ano, não tinha trabalho, morava em área de invasão, não tinha acesso à internet ou tv fechada. mas ela também queria diversão. ela queria ser feliz. e foi por uma tarde. e eu, só quero ser feliz por uma noite de domingo. talvez a diferença resida nas prioridades. as críticas que vi escritas são de pessoas que provavelmente também não se manifestaram a não ser pra condenar a manifestação alheia. as crianças da rede pública não receberam seu uniforme para o ano letivo, o transporte público é caro, a dengue incontrolável começa a dar lugar à gripe, e tantas outras observações que eu não vou listar aqui andam lado a lado com o fato de santos estar em decadência cultural. diversão e arte (os titãs têm uma ilustração pra cada situação, né?) são necessárias tanto quanto comida e dinheiro. porque no fundo as pessoas só querem ser felizes. eu queria que as mães da rede pública tivessem batido panela juntas contra a incerteza da secretaria da educação. e será que não bateram? isoladas, aqui e ali? pode ser...
para alguns, a manifestação pelo torto será mesmo só uma festa e, ainda assim, encontrar os amigos é altamente recomendável. pra outros, pode significar mais. sempre vejo críticas às manifestações contra a violência quando morre uma mocinha branca universitária e a família organiza marcha, caminhada, ato, o que seja. logo, vem alguém dizer que não se chora pelos mortos pretos pobres. é mesmo de incomodar que a favela não se articule pra caminhar em copacabana vestida de branco. mas será que não se articula de modo algum ou será que o olho está treinado pra ver só um tipo de coisa?
eu não sei... ainda estou pensando...
Fevereiro
Há 17 anos


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