Minhas loucuras passadas

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Falo muito, sou pequena. Reclamo horrores e sou briguenta. Pinto o cabelo de tempos em tempos. Me visto de acordo com meu humor, sou gulosa demais. Gosto de ser casal e ser amiga. Adoro escrever de tudo, cartas e histórias. Amo as artes todas, inclusive aquelas que não consigo fazer. Sou a favor das diferenças, sempre. Olhos castanhos, unhas pequenas. Tímida demais pro meu gosto.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Silêncio e perdão

Tem momentos da vida que a gente fica sensível a algumas coisas. Estava conversando com amigas de mil anos de caminhada e falávamos de filmes em geral e o tanto que gostamos de alguns deles e o pouco de outros tantos, e de como essas preferências não concordam.
Lembrei do filme que assisti e o quanto me tocou sem ser cult ou inteligentíssimo ou aclamado. Sabe o Eddie Murphy, aquele que fez o papel de Eddie Murphy (e não tô fazendo crítica ruim) a vida inteira? Pois então, ele fez um filme que chama "A thousand words" com um argumento curioso mas conduzido pro Eddie Murphy ser o próprio e fazer todo mundo rir com as mesmas caras do "tira da pesada".
Então, o Eddie é um cara bem sucedido, morando numa casa fenomenal, pegando uma mulata linda, com um bebê fofo e uma lábia que o fez chegar até ali. O cara é um editor e diz que só precisa ler as primeiras e as últimas 5 páginas de um livro pra saber se vale a pena vender. Sem entrar em muitos detalhes, um dia, esse cara vê aparecer uma árvore na borda da sua piscina com aproximadamente 1000 folhas. Cada palavra que o cara fala, uma folha vai pro chão. E aí... Ele estará morto em pouquíssimo tempo já que a lábia é o que sustenta a máscara dele (lembremos que todos temos uma). E naquela jornada bem previsível pra escapar dessa morte, lá vai o Eddie Murphy com caras e bocas tentando ficar em silêncio e enfrentando seus demônios internos e os capetinhas das relações com a mulher e família até as coisas se resolverem.
Bom, eu amo as palavras e achei a coisa toda muito interessante por isso num primeiro momento. O silêncio e, para além dele, a ausência de palavras dando lugar somente a gestos. Grandes, pequenos, de sobrevivência ou expressão do mundo interno. Apenas gestos. Sim, porque de nada adiantava o pobre tentar escrever, as folhas caíam mesmo assim. Esse silêncio tão necessário que eu ainda não aprendi a cultivar sempre me deu o que pensar. Como ele é importante e como esse mundo nos empurra cada vez mais para uma avalanche de informação concreta, escrita, falada, pintada, cantada, esculpida. E como as palavras dizem coisas e os gestos vindos da mesma fonte dizem o oposto em tantas ocasiões. E quando o Eddie Murphy desistiu de tentar evitar o inevitável, ele saiu por aí fazendo o que devia ter feito a vida inteira: gastou as palavras que tinha pra dizer o que realmente importa pra quem importa e que fosse toda a verdade do que poderia ter mostrado com gestos um tanto antes. E, quando a gente pensa que virá o inevitável "eu te amo" pra redimi-lo e dar uma guinada no destino de morte dele, eu curti justamente o pequeno desvio do filme. Não era o amor que salvaria Eddie Murphy, era o perdão. Ele deveria dizer "I forgive you" pro próprio pai. Super clichê. Mas e daí?
Quem realmente perdoa o mal feito? Quem consegue fazer isso durante toda essa nossa vida de eventos por vezes difíceis porque achamos que nunca merecemos aquela dor que nos abate? Eu tenho buscado dentro de mim o silêncio necessário pra me livrar do discurso acusatório quando me sinto machucada ou injustiçada pra poder discernir se o mal e a dor que me abatem foram criados por outro ou por mim mesma. E daí, então, exercitar o perdão, seja ele oferecido a outro ou a mim mesma (estágio lindo da existência terapizada :) ).
Porque aí a gente consegue se livrar dos males da alma, do coração, da mente e do corpo até. Consegue se livrar ditadura e da influência do exército do rivotril. Transforma nossa caminhada numa sucessão de processos consistentes de vida ao invés de construir um quarto cheio de interruptores que desligam dores que não queremos sentir, amores que não suportamos de tão grandes, decepções que machucam, mágoas que não ficam claras. Consegue então sem nenhuma demagogia ou misticismo religioso ou auto ajuda barata entender as palavras de Lao Tzu:
Se você está deprimido,
Você está vivendo no passado;
Se você está ansioso,
Você está vivendo no futuro;
Se você está em paz,
Você está vivendo no momento presente.
Pelejei muito tentando chegar nesse momento presente, mas tenho certeza que I'm not quite there yet. Falta alguma coisa, algum equilíbrio, algum perdão pra oferecer e algum silêncio pra cultivar. Hoje, sinto um certo desânimo por enfrentar mais uma perda acompanhada de mais uma ou duas dificuldades e descobrir que ainda não estou pronta pro silêncio e o perdão.
E, talvez, tenha que lançar mão de um antidepressivo ou um ansiolítico tentando voltar minha atenção para o presente que pode estar escapando agora mesmo levando junto toda paz que deveria habitar minha casa.

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