olha, eu tenho pensado que a vida é um jogo e eu tenho sorte na vida. sempre que alguma coisa precisa ser resolvida, o acaso acontece, inexorável, resolvendo situações e tecendo circunstâncias que me ensinam algo e me catapultam para o futuro, pra frente, pra novas fases mais interessantes e intensas que as anteriores. precisava me mudar de apartamento, estava tudo caro e eu sem fiador? eu recebo uma oportunidade de trabalho que paga mais e encontro um apartamento na próxima esquina cuja dona SÓ aceita o depósito que eu tinha. a vida estava difícil, não conseguia trabalhar, pensava em voltar pra floripa? chega um telegrama de um concurso prestado 3 anos antes dizendo pra eu me apresentar. preciso preterir minha posição de chefe e, com isso, perder uma grana que inteirava as contas do mês? a prefeitura aceita finalmente o plano de carreira e o dinheiro volta ao salário de outras formas.
se pensarmos que ditados populares (os tradicionais e os "novos" do dazaranha) têm grandes verdades, sorte no jogo e azar no amor. minha vida amorosa, por assim dizer, sempre teve um movimento menos harmonioso do que minha vida pessoal. nada encaixa direito, as dificuldades dos relacionamentos são muitas, os relacionamentos em si, escassos. namorei muito pouco. aliás, acho que namoro tem tantas caras que precisaria cunhar mais uns dois ou três termos pra denominar os relacionamentos que tive. portanto, poucos namoros, muitas experiências anyways...
hoje, estava vendo besteiras na internet e me deparei com um aplicativo "descubra seu orixá". os orixás, coisa que respeito, ok. o aplicativo, uma bobagem. na linha "no creo en brujas, pero que las hay, las hay" eu inseri minha data de nascimento e então descobri que meu presente está sendo conduzido com a influência de iemanjá que "tem um caráter protetor e pouca sorte no amor. até que gostaria de casar, mas não nasceu pra isso. vai ser preciso abrir mão de muitas coisas para poder se casar." afora a manobra desse tipo de mídia, um site para a mulher brasileira, de dizer à desavisada nascida em 14 de março de 1978 que ela é uma mulher do mundo, racional, independente, e forte, mas que por isso mesmo não vai conseguir ser uma esposa de 1950; e por isso mesmo tudo isso é muuuuiiiito legal...
enfim, iemanjá anda me acompanhando. se eu tiver que abrir mão de muitas coisas... acho que não vai mesmo rolar. e, então, por não me afastar de algumas coisas importantes pra mim, estou eu em meio a novo rompimento. os rompimentos são interessantes porque acompanham os 5 estágios do luto pela perda, mas eu, terapizada e louca, já vejo um processo pelo qual passam os sentimentos em si.
me parece que existem uns sentimentos nobres, superiores, grandes e outros menores, plebeus, mais primitivos. a essa altura da coisa toda, tanto uns quanto outros estão, pra mim, no mesmo patamar. um dia, tive vergonha de sentir as coisas menores, hoje aprendo com estes sentimentos primitivos. depois daquela paixão crua e louca que junta duas pessoas, segue um momento mais singelo e suave de se sentir confortável no outro, na rotina, no detalhe. esse é o amor. aquele que escolhe, aquele que aceita o outro.
no rompimento, tem aquele sentimento também mais suave, sereno, de ficar quieto e observar a tempestade pra não se colocar em risco durante ela. e tem aquele momento em que se sente as coisas na boca do estômago, a raiva, a vontade da vingança pela mágoa que faz sofrer. e, aí, nada se calcula, de nada se preserva, não fica pedra sobre pedra em qualquer encontro aleatório ou provocado.
o que vem antes? a tempestade ou a reflexão? eu não sei. já experimentei de tudo, inclusive intercalado. mas parei de negar os sentimentos menores como se eles me desabonassem. ao contrário, eles me tornam uma pessoa de verdade. e aí, sim, eu consigo escolher melhor os caminhos; não sigo um caminho porque é o que "devo fazer", mas sigo porque senti o suficiente para que a escolha ficasse clara.
romper mais um vínculo me dá vontade de voar um pouco pelo tempo, dono de todas essas fases, e encerrar esse processo pra abrir espaço pra outras coisas.
e ter uma conversinha de pé de ouvido com iemanjá pra saber se é essa mesmo a ordem das coisas: sorte na vida, amores complicados.
Fevereiro
Há 17 anos


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