e é por isso que as eleições não me movem. sabem, em 2005, eu fui furtada dentro do ônibus. na época eu era bem mais tralheira do que sou hoje. primeiro, porque as costas sem hérnia permitiam carregar pesados volumes, e outra porque eu sentia uma sensação de estar preparada pra tudo. a idade fez com que eu percebesse que nunca estarei preparada pro acaso e menos ainda para as coincidências e que é melhor não carregar 10 quilos nas alquebradas C6 e C7. enfim, essa era uma época em que carregava comigo todos os papéis que dizem que sou gente: identidade de 3 tipos: militar, civil, profissional; título de eleitor, cpf, cartões de lojas e crédito e por aí vai. não é demais voltar aos aniversários que me mostraram que o mínimo já te coloca e recoloca no mundo e, hoje, saio com a chave da minha porta de casa, meu dinheiro de plástico, meu dinheiro de papel e minha identidade militar. o cigarro, o isqueiro e o celular. e tá bom, e acabou. o batom vai gastar na balada, o cabelo vai sofrer o efeito bethânia, talvez até um botão se perca revelando mais do que o necessário. mas saberei quando vai acontecer? e se eu carregar uma mala por anos a fio e, justo no dia em que não a tenho, precisar de uma linha e uma agulha?
então, lá em 2005, estava eu no ônibus, com minha mala de tantos bolsos que não conseguia dar conta de todos eles e justo a minha carteira monstro da época foi levada com facilidade. ao descobrir, tomei providências e fiz com que o pobre escrivão que registrou a ocorrência listasse TODOS os itens furtados. isso foi bom no futuro quando alguém começou a gastar o dinheiro que eu não tinha. aí, começou minha peregrinação para reaver os tais papéis que prometiam que eu voltasse a ser alguém. embora nada tivesse mudado, me sentia uma outsider, sem lenço e sem documento, e também sem direitos mas com alguns deveres... tive que camelar mais ou menos por dois meses para regularizar minha situação e cada dia trazia um novo desgaste, numa loja, num banco, numa instituição. me fazia pensar como as pessoas que vivem fora da letra da lei conseguiam seguir com facilidade e eu, que nunca tinha deixado de me declarar isenta do imposto de renda, vivia um meio inferno.
e aí, chegou o momento de tirar novamente o título de eleitor. e, surpresa: em 40 minutos eu tinha um novo título de eleitor em mãos. plastificado. minha revolta com a política partidária e com o estado podre se consolidou ali. lembrem-se que eu sou de floripa, não tinha ainda transferido o título e tive que fazê-lo por ocasião do furto. não houve taxa, não houve demora, não houve fila! no país da fila... não houve mau trato, não houve exigência de cópias autenticadas de coisa alguma. bastou apresentar para as vistas do funcionário minha certidão de nascimento e comprovante de residência. e os computadores funcionavam e a máquina de plastificar estava à disposição.
ou seja, eu podia ficar o resto da vida sofrendo por falta de documentos e tendo entraves na minha vida, mas, deusnoslivre dessa mocinha deixar de votar uma eleição sequer e deixar de garantir a corja no poder.
por isso, voto nulo. nenhum desses caras serve pra falar por mim. deixa que eu vou lá e falo!
2 comentários:
ótimo texto mocinha...
obrigada, aliny!!!
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