Meu joelho amanheceu ralado... Eu não lembro o que houve com ele.
Muitas horas antes, ele estava intacto, tanto quanto minha chapinha, cabelo escorrido pelas costas de roxo e brilhinhos. Luvas e cachecol.
Na frente da placa, o nome que eu conheço escrito errado. Os imigrantes nunca contestaram o mau uso de tremas, letras dobradas e afins; eles não estavam nem aí: o Brasil dava casa, comida, e muito trabalho. Bem como a Europa, mas com um colorido nunca visto antes. E, enfim, embora italiano, parente latino da língua local, foi registrado certinho na chegada, mas até hoje acontecem um L só, ou - erro de mau gosto - trocar o I final por um incômodo E.
E a placa estava lá. A noite já era fria, mas o gelo subiu da boca do estômago pro pescoço, dando efeito de torcicolo instantâneo. Só que eu já tava na rua, de flyer na mão porque a crise tá grande, até linda naquela noite. Não dava pra recuar. Eu tinha que subir as escadas. Cada passo que eu dava parecia que me levava pra forca.
Ainda bem que ainda não era agosto e dava pra fumar. Porque essa noite não seria atravessada sem um Marlboro pra acompanhar a cerveja caríssima. Vocês sabem, o Serra está muito preocupado com os nossos pulmões e agora não se fuma mais em lugar nenhum. Às vezes, nem na minha casa. Mas era imprescindível acender o cigarro.
Quando eu estava já bem confortável com o frio que sempre faz lá, quando eu já estava bem equilibrada, o coração batendo ritmado, eu me perdi. Não sei se foi a salsa, não sei se foi o adiantado da hora, olhei pra onde não devia, meus pés me levaram pro lado errado e tava de frente pro meu inimigo íntimo que mora do meu lado de fora.
Foram poucas palavras dele, nenhuma minha.
Desci as escadas, fingi que nada tinha acontecido.
E ralei o joelho numa transversal da Afonso Pena, provavelmente correndo pra minha salvação.


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