Hoje acordei lavando a louça. Enquanto executava essa tarefa, fiquei praguejando contra o portal fechado. Portal? Peraí, a gente não tava falando de louça?
Sim. De tempos em tempos, se abre um portal na minha vida prum mundo onde existem louças lavadas, caronas pra Guarulhos, shows despretensiosos, lustres instalados. Quando eu passo por esse portal, encontro do outro lado moços solícitos e heroicos que não se furtam a, por 7 horas, dias ou semanas, fazer todas as minhas necessidades preenchidas.
Eu protesto, mas os pequenos prazeres falam mais alto e acabo cedendo a esses mimos que estão fadados ao fim logo menos. No fundo, eu sempre sei que vou terminar sem muita coisa, com uma pilha de louça pra lavar, de alicate e fita isolante na mão, comprando meu ingresso pro show e ouvindo "Back from Cali" a bordo da viação Cometa.
E, de verdade, me pergunto o que me fascina tanto do outro lado do portal. A vida do lado de cá, mais concreta, mais consistente, mais satisfatória inclusive, tá à minha disposição todos os dias, já que... bem, é minha!
Mas eu sou uma romântica viajona e viajante incurável que não perde chance de atravessar pro outro lado sabendo que vai voltar esfarrapada, cansada, com fome, suja, doente; quebrada como se voltasse da guerra. Como se carregasse no peito todos os horrores do campo de batalha.
E assim, dolorida e machucada; feridas abertas, a carne viva; o peito exposto e o coração esgotado, volto.
Volto às louças e aos lustres, e nada mais fica. Só uma lembrança que o lado de lá não se sustenta em terra de gentes. Só de amantes.
Fevereiro
Há 17 anos


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