Eu deveria estar estudando loucamente pra prova mais polêmica do semestre, aquela de hematologia que ia acontecer em meio às barricadas da greve geral de sexta agora. Mas comecei a olhar os arquivos que precisava organizar pra iniciar e percebi que minha vida não está em dia.
Naquela época em que a matéria que você perdeu era passada pra você numa xerox da folha do caderno (isso quando não formos mais longe, no primário, onde a solução era copiar mesmo à mão na hora do recreio do caderno do amiguinho), tudo era mais palpável e, confesso, me deixava mais segura pela possibilidade de tocar, de ter. E de, rapidamente, ao chegar em casa, arquivar. Sim, eu gosto de papeis e tive um hard time em me adaptar a esses tempos de "pera, que eu mando a lousa no grupo".
Resulta que meu celular tava cheio de tanta coisa misturada que eu não achava mais quem eu era. Achei coisas interessantíssimas e outras nem tanto e meu dedo expositor começou a coçar pra passar o dia inteiro postando e postando.
Claro que eu não tenho tempo pra isso, a hematologia tá me engolindo viva, eu tô desesperada, pensando em sucumbir. Mas eu sempre me organizei pela tormenta escrevendo e agora não será diferente. Eu tô com umas coisas engasgadas. And they're holding me back.
Mas eu vou começar por uma preciosidade. Encontrei, entre as milhares de não-informações despejadas nos grupos todos os dias, esse registro do início da década de 1980. Tanta coisa me vem pra dizer... Começo por notar o penteado e maquiagem da Carminha, francamente inspirado nas Frenéticas. Ainda me lembro (e tenho) do disco de 1977 que tocava em casa no robusto Sharp que tínhamos e cujo repertório trazia as trilhas das novelas, Gil, Baby, Caetano, Bethânia e o rei Roberto Carlos. Esse vestido da minha mãe era tão pequenininho que eu, aos 14 anos, não cabia nele (me pergunto por que não fui magrinha como ela). E eu me lembro de achar muito, muito lindo aquele brilho todo e sonhar em usar um vestido de gala desse um dia.
Meu pai com aquela cara de "tô aqui, mas nem ligo". Ele tinha essa cara sempre e eu me pergunto até hoje pra onde ele ia quando estava nessas situações sociais. Ele sempre parecia desinteressado, mas penso que poderia estar observando algo que ninguém estava vendo. Ou só de saco cheio mesmo, esperando a hora de beber seu uísque em paz. Olho pra ele e penso como meu irmão ficou mesmo parecido e que viemos todos da mesma forma, assados na mesma temperatura, pelo mesmo tempo.
E esse meu lacinho... Eu tinha fitas e fitas compradas com carinho pela mamãe na casa de aviamentos que agora me escapa o nome ali na Galeria Jaqueline. E esse penteado da trancinha que cruzava a cabeça ficava característico já que o laço sempre ficava grande demais e eu ficava com um jeitão de estar com a cabeça sempre pendida, como quem faz um questionamento. Deve ser por isso que eu pergunto e pergunto e gosto de espremer respostas das pessoas.
Uma família do fim dos anos 1970. Uma família que viveu no Regime Militar. Uma família que se fez quando não havia de ser diferente. Uma família conservadora.
E hoje eu fico me perguntando como e de onde surgiram os pequenos detalhes que me fizeram voar pra tão longe dessa foto. Negar o que está estabelecido ali. Desafiar o mesmo que poderia ter vindo pra mim.
Aos quase 40 anos, eu tenho voltado muitas vezes nessas raízes, nesse ponto que eu identifico como de partida. E, as perguntas superam em muito a quantidade de respostas que já obtive. Mas olha pra essa foto me põe um sorriso daqueles de Lispector, só insinuado, porque o caminho tem sido lindo...
Fevereiro
Há 17 anos



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