Minhas loucuras passadas

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Falo muito, sou pequena. Reclamo horrores e sou briguenta. Pinto o cabelo de tempos em tempos. Me visto de acordo com meu humor, sou gulosa demais. Gosto de ser casal e ser amiga. Adoro escrever de tudo, cartas e histórias. Amo as artes todas, inclusive aquelas que não consigo fazer. Sou a favor das diferenças, sempre. Olhos castanhos, unhas pequenas. Tímida demais pro meu gosto.

domingo, 10 de maio de 2015

mãe?

reflexões que têm a ver com ser mãe no dia das mães... coisas que só o fb faz pra você. não te deixa esquecer uma data sequer. mas enfim, eu tô aqui pensando sobre uma conversa que tive com amiga de trabalho onde eu ponderava sobre o quanto estávamos prontos pra ouvir nosso paciente se ele nos trouxesse uma realidade que nunca vivemos. eu ponderava sobre a experiência...
realmente não tem jeito de você significar algo que não viveu. você colhe informações, você estuda sobre aquilo, você ouve e observa um pouco mais, você escreve, você lê, pensa e volta a estudar.
transporto essa ponderação para a maternidade. sou uma uma mulher de 37 anos. em algumas épocas, jovem senhora; em outras, solteirona; em outras, idosa. hoje, creio que sou uma mulher na metade da vida (mais ou menos). não sou jovem, mas não alcancei a velhice. e não tive uma gravidez sequer (até onde sei...).
eu penso muito sobre as coisas ditas universais por dois motivos: um, sempre fui meio esquisita e desconforme em sociedade e dois, estudei antropologia (bem pouquinho, é verdade...). e ser mãe é uma definição recheada de clichês e certezas. essa semana, uma mãezinha jovem me disse: eu olho pra ele (o bebê de uma semana) e não consigo gostar dele, não sinto nada e prefiro a ... (filha de dois anos). aquilo me caiu como uma luva para o dia das mães e para as coisas que venho pensando. realmente, porque eu deveria achar esquisito que essa menina não gostasse do filho? não acho. são pessoas, pessoas que podem ou não ter afinidade e se desejar. nem quero pensar aqui em freud e outros que tais. quero só dizer que ser mãe, como toda e qualquer coisa que nos compõe, é algo que se constrói e não está dado porque tenho mamas e útero.
meus hormônios falam comigo como é esperado acontecer. quando eu tinha uns 26 ou 27 anos, eles falaram mais alto e eu sentia sim uma prontidão biológica pra dar cria. mas aquilo não se concretizou e eu fui seguindo sem mais percalços. sigo aqui menstruando, fazendo sexo, mas não se faz dentro de mim uma condição pra dar cria.
eu vejo muitas tragédias e um mundo de sofrimento todos os dias no meu trabalho. acho que o mundo está muito cheio e podemos parar um pouco de fazer mais gente pra nos concentrarmos em melhorar as gentes que já estão aqui. ando exausta de ver crianças que estão no mundo como quase nada porque já foram geradas assim por homens e mulheres que são muito pouco. é preciso mais cuidado e mais amor. quem já está por aqui está vagando perdido.
eu sou durona, e nada acolhedora. o que é esquisitíssimo prum observador pois é comum eu chorar discutindo um caso no trabalho, ao ouvir uma música, ler um fragmento qualquer, ver uma foto. parece que não combina, mas é assim que é. minha proposta para os próximos anos é abrir meu cronograma pra possibilidades. e cada vez mais ter contato com o que sinto.
foi por causa dessa proposta que eu fui escolhida duas vezes pra ser responsável, cuidar e proteger. porque eu me permiti. eu deixei que os olhinhos dos meus filhotes olhassem bem dentro dos meus de modo que não se podia mais reverter o encontro. imagino que mães de humanos que também são mães de bichos saibam de uma diferença que eu não conheço. mas é como pontuei acerca das experiências... não dá pra saber sem viver...
é um amor diferente esse que cuida e protege e sente como se aquele ser fosse um pedaço seu. não é. tenho a impressão que o desafio está em se lembrar a todo momento que mães são pessoas. e seus filhos são outras pessoas (ou gatos...). e que mães precisam de seus filhos pra significar uma parte sua. aquela que cuida, que ama, que protege. que chega a pedir secretamente que aquela dor não seja imposta ao filho mas que pode ser trazida pra elas porque elas aguentam.
acho que ser mãe é chegar num momento da vida (que aí nada difere de ser pai) em que você precisa ser herói, e fazer algo tão lindo que te preenche de uma certeza (que na real não existe) de que tudo vai ficar bem.
talvez ser mãe sirva mais às mães do que aos filhos. uma parte de mim foi salva pelos meus filhotes. freud foi o filhote que me veio em forma de pergunta. será que você consegue manter esse gato vivo?
clarice foi a filhote que me veio em forma de resposta. você consegue cuidar.
ainda ponderando sobre a experiência, creio que quem só é mãe de humanos (ou de ninguém) não compartilha do mesmo amor que eu experimento. é um silêncio cúmplice e uma linguagem própria de uma relação que eu não imaginava possível até me dispor a ela.
e ser mãe ou pai, ter um filho, tem mais a ver com um processo do que com o nascimento de uma nova vida no mundo. eu tô no meu processo. eu escolhi e fui escolhida. a gente sabe que ama de verdade quando consegue estabelecer uma intimidade tão rara que atravessa a barreira do nojo. isso é muito interessante. o dejeto, o podre, o sujo do outro é algo suportável pra você. é até mesmo desejável como sinal de que tudo vai bem. ou de que algo precisa de atenção. quando eu amo, eu aceito o fétido. lambo feridas. e qualquer coisa comum se torna um evento grandioso sempre que ocorre. um soluço, um bocejo. tudo é singelo.
só o que me importa agora é amar esse amor. ficar mais amena e serena por ele. ser mais sábia e discernir melhor os caminhos. fazer escolhas mais legais pra minha vida porque a minha vida vai pautando a deles. e, se um dia o caminho indicar, dizer sim mais uma vez.

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