Minhas loucuras passadas

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Falo muito, sou pequena. Reclamo horrores e sou briguenta. Pinto o cabelo de tempos em tempos. Me visto de acordo com meu humor, sou gulosa demais. Gosto de ser casal e ser amiga. Adoro escrever de tudo, cartas e histórias. Amo as artes todas, inclusive aquelas que não consigo fazer. Sou a favor das diferenças, sempre. Olhos castanhos, unhas pequenas. Tímida demais pro meu gosto.

segunda-feira, 23 de março de 2015

!!!

Um dos momentos mais interessantes da vida acontece quando você se vê diante das suas coisas mais secretas. Aquelas coisas suas construídas somente de sentimentos dos mais primitivos. Aqueles que, passados 30 segundos de sua chegada, já inventamos 573 nomes diferentes porque chamá-lo pelo próprio era feio ou pouco elegante. Sim, raiva, inveja, paixão, prazer, dor, frustração. Sem elaboração. Sem reflexão. Só sentimento que te sobe das vísceras e te toma de um dedo a outro, carne, pele e osso. Sentimento primitivo que chega pulsando vermelho de sangue.
Acho que passamos boa parte da vida não sentindo esses sentimentos. Por culpa, por vergonha. E terminamos quase atropelados por eles em determinado passo do caminho. Golpe de sorte é você sentir uma parada dessas e reconhecer antes de a coisa se elaborar e se esterelizar até não sobrar nada senão um belo texto.
Pois nos últimos 15 dias, eu senti. Senti uma raiva de fazer mandar pessoas pra lugares não-literais. Se a gente pensar, palavrão é das coisas mais legais que existe. Mandar alguém de volta pra puta que o pariu, por exemplo, não é algo necessariamente ruim. Mas mandamos. Pro inferno, pra casa do caralho. Sem pensar onde exatamente ficam esses lugares e o que o mandado vai enfrentar quando lá chegar. Pra além disso, você deseja de todo o coração que a experiência seja terrível. Mas... Quem faz a viagem é o viajante e, de verdade, não temos gerência sobre o que o outro vai tirar de uma visita a uma tomada no cu.
De qualquer maneira, eu senti raiva. Primitivamente, sem elaborar nada em terapia alguma, sem acessar conteúdo interpretado e sem ponte alguma com o conetxto, eu desejo que todos aqueles que já me pediram um favor depois de passar meses sem falar comigo, que nunca me perguntaram se eu precisava de 50 reais pra pagar uma conta de bar mas não param de reclamar que eu não apareço, que já choraram suas pitangas de família no mesmo em dia em que eu morria de saudade do meu pai ou amargava a palavra maldita pra minha mãe, que já me contataram em hora imprópria de acordo com sua necessidade sem nem pedir licença ou perguntar se podia atender, que já me falaram palavra doce enquanto o sentimento era raso, que já gozaram meu cigarro e minha cerveja sem pensar que me faltaria em hora de precisão, que já usaram da minha fragilidade momentânea pra dar migalha afetiva, que já usaram da minha força constante pra segurar sua própria bronca, que já me cobraram aquilo que nunca conseguiram dar pra ninguém, que já me criticaram quando nunca conseguiram fazer melhor, que já sumiram covardemente sem se despedir, que já mentiram pra mim em proveito próprio, que já fizeram pouco do meu sofrimento e exigiram minha atenção para o seu, que já faltaram com paciência diante da minha dificuldade depois de eu ter esperado seus tempos, que já se sentiram no direto de me falar o que lhes passava na cabeça em qualquer tempo ou lugar e deram as costas sem ouvir minha resposta, que me cercearam no meu direito e desrespeitaram meu corpo, vão devidamente à merda.
Ainda que a terapia te ensine que é energia perdida devolver com raiva o mal feito com você porque, afinal, só você mesmo pode se responsabilizar pela posição que escolhe numa relação e que se um espertinho te submete, te humilha, te violenta, você constroi rota de fuga a partir da consciência da opressão; eu não queria deixar passar esse momento de raiva de uma galera que se fez de espertinha comigo e jogar de volta na cara dessa mesma galera toda a lama que decidiram despejar aqui.
Amanhã, eu recoloco tudo no lugar.
Hoje, como diria minha amiga Marcele: cala a boca e me dá meu uísque!

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