Tô na minha sala
no ambulatório, chuva torrencial sobre Santos. Pra além de hoje ser
aniversário do meu segundo ex marido e isso me deixar um pouco
pensativa, estou suspirando. Nada a ver com coraçõezinhos.
Suspirando como alento.
Dezembro foi
assim. Eu sem fôlego, cansada e esgotada, mas com um quê de
frenesi. Dezembro passou na metade do tempo que se espera passar um
mês. Talvez um terço. Eu nem dormia o dia 10 e já era dia 12… E
eu andava que nem criança, arrastada pela mãe atrasada no centro da
cidade.
Eu chorei
lágrimas minhas e dos outros. Estive sensível. Tenho o hábito de
chorar no banheiro a história de certos pacientes. Foram vários
esse mês. Aos trambolhões, me vi assumindo, além da miséria
alheia, o caos da casa e janeiro será de ser chefe.
E janeiro será
de derreter. Foi tanto calor nesses dias que até desisti da OSESP na
praia. É quase uma tradição minha acompanhar o concerto da
orquestra no Gonzaga e eu não consegui sair do ar condicionado esse
ano.
Mas não é nada
disso que importa.
O que importa é
que em dezembro eu fui, mais uma vez, surpreendida por mim mesma. Eu
seguia daquele meu jeitinho, jogando o cabelo, uma piscadela
burlesca, maquinando “por que não esse aí, com cara de perdido,
num contexto improvável”?
E tava garantido.
Eu ia seguir mais uma vez com uma história rápida e intensa, ia me
enganar com as intenções (minhas e dele) e ia sofrer uns meses por
uma coisa nunca havida. Depois ia levantar com cara de choro e ia
passar um reboco na cara. Seguiria pra noite sem fim.
Mas… assombro!
O filme começou a rodar e eu, nos primeiros vinte minutos, disse:
para um pouco, deixa eu fazer uma alteração de roteiro. Não quero
assim. Não me engana que eu não gosto. E eu ajustei a rota. E isso
foi doído demais.
Cada cena que eu
ia vivendo, eu me descobria outra. O texto mudou. Ficou contido
(veja, eu já falei muuuuiiiiitoooo mais). Eu fiquei mais sóbria e
observadora. E eu ouvi. E guardei coisas pra mim. E eu me dei tempo
suficiente pra ser eu.
Quando tudo se
fez fim, haviam passado 20 dias. Só 20. E eu cheia de raiva, dor.
Contrariada como uma menina que não consegue o que quer. E também
estava preenchida. Preenchida de mim mesma pelo que o outro
descobrira sobre mim.
Ele me viu como
ninguém há muito fazia. Ele me despiu devagar pra que cada pedaço
contasse um conto. Ele me olhou entre curioso, encantado e como que
movido por uma febre. E eu tive medo. Medo de não bancar o roteiro
adaptado até o fim. De tropeçar e perder a mão. E realizar um fim
insípido e cansado.
E, por medo,
fechei os olhos. E dormi a despedida. Um pouco como aquela onda ou
aquele giro que começa a dar certo e você fecha os olhos, um pouco
de prazer, um pouco de descrédito: tô mesmo girando no eixo? Tô
mesmo no drop?
Já aprendi faz
tempo que é preciso marcar a cabeça e olhar pra frente. E foi um
pouco o que tentei fazer, sucumbindo só no final. Não tive coragem
de encerrar 20 dias. Tive a chance e ela escorreu like falling
sand...
Que fazer agora
que não para de chover e eu tô ilhada dentro do mim?


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