Minhas loucuras passadas

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Falo muito, sou pequena. Reclamo horrores e sou briguenta. Pinto o cabelo de tempos em tempos. Me visto de acordo com meu humor, sou gulosa demais. Gosto de ser casal e ser amiga. Adoro escrever de tudo, cartas e histórias. Amo as artes todas, inclusive aquelas que não consigo fazer. Sou a favor das diferenças, sempre. Olhos castanhos, unhas pequenas. Tímida demais pro meu gosto.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

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Tô na minha sala no ambulatório, chuva torrencial sobre Santos. Pra além de hoje ser aniversário do meu segundo ex marido e isso me deixar um pouco pensativa, estou suspirando. Nada a ver com coraçõezinhos. Suspirando como alento.
Dezembro foi assim. Eu sem fôlego, cansada e esgotada, mas com um quê de frenesi. Dezembro passou na metade do tempo que se espera passar um mês. Talvez um terço. Eu nem dormia o dia 10 e já era dia 12… E eu andava que nem criança, arrastada pela mãe atrasada no centro da cidade.
Eu chorei lágrimas minhas e dos outros. Estive sensível. Tenho o hábito de chorar no banheiro a história de certos pacientes. Foram vários esse mês. Aos trambolhões, me vi assumindo, além da miséria alheia, o caos da casa e janeiro será de ser chefe.
E janeiro será de derreter. Foi tanto calor nesses dias que até desisti da OSESP na praia. É quase uma tradição minha acompanhar o concerto da orquestra no Gonzaga e eu não consegui sair do ar condicionado esse ano.
Mas não é nada disso que importa.
O que importa é que em dezembro eu fui, mais uma vez, surpreendida por mim mesma. Eu seguia daquele meu jeitinho, jogando o cabelo, uma piscadela burlesca, maquinando “por que não esse aí, com cara de perdido, num contexto improvável”?
E tava garantido. Eu ia seguir mais uma vez com uma história rápida e intensa, ia me enganar com as intenções (minhas e dele) e ia sofrer uns meses por uma coisa nunca havida. Depois ia levantar com cara de choro e ia passar um reboco na cara. Seguiria pra noite sem fim.
Mas… assombro! O filme começou a rodar e eu, nos primeiros vinte minutos, disse: para um pouco, deixa eu fazer uma alteração de roteiro. Não quero assim. Não me engana que eu não gosto. E eu ajustei a rota. E isso foi doído demais.
Cada cena que eu ia vivendo, eu me descobria outra. O texto mudou. Ficou contido (veja, eu já falei muuuuiiiiitoooo mais). Eu fiquei mais sóbria e observadora. E eu ouvi. E guardei coisas pra mim. E eu me dei tempo suficiente pra ser eu.
Quando tudo se fez fim, haviam passado 20 dias. Só 20. E eu cheia de raiva, dor. Contrariada como uma menina que não consegue o que quer. E também estava preenchida. Preenchida de mim mesma pelo que o outro descobrira sobre mim.
Ele me viu como ninguém há muito fazia. Ele me despiu devagar pra que cada pedaço contasse um conto. Ele me olhou entre curioso, encantado e como que movido por uma febre. E eu tive medo. Medo de não bancar o roteiro adaptado até o fim. De tropeçar e perder a mão. E realizar um fim insípido e cansado.
E, por medo, fechei os olhos. E dormi a despedida. Um pouco como aquela onda ou aquele giro que começa a dar certo e você fecha os olhos, um pouco de prazer, um pouco de descrédito: tô mesmo girando no eixo? Tô mesmo no drop?
Já aprendi faz tempo que é preciso marcar a cabeça e olhar pra frente. E foi um pouco o que tentei fazer, sucumbindo só no final. Não tive coragem de encerrar 20 dias. Tive a chance e ela escorreu like falling sand...

Que fazer agora que não para de chover e eu tô ilhada dentro do mim?

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