adormecer com o dia claro nunca foi problema pra mim, tenho predileção pelo escuro e pelos movimentos da noite que são muito mais curiosos do que os do dia. mas frequentemente me vejo acordando logo em seguida, meio perdida, com gostos e cheiros misturados, indecisa sobre a refeição que devo fazer; afinal é hora de almoço ou café da manhã? e tudo acaba virando jantar, pois fico muito tempo tentando relembrar as cores e luzes do que se passou há tão pouco, mas já faz parte do filme que terminou.
enfim, me decido pelo café da manhã, iludida pela possibilidade de dormir o necessário para me apresentar sem as olheiras que denunciam todos os 35 anos (mais as cervejinhas e os cigarrinhos e as guloseimas). e a cabeça começa a pulsar, sinto o sangue circulando, tentando levar o imprescindível pro resto do meu corpo esboçar reação, ou relaxar. lembro que tenho um isotônico na geladeira e ele parece a opção acertada acompanhado de um engov visto que já estou alimentada e o que me falta é hidratação.
mas a cama para o sono não se mostra, é só uma bagunça de panos leves e pesados e não encontro uma posição que me faça sentir segura. e a mesma confusão que se instala no meu reino esteve intensa durante toda a madrugada.
é como se estivesse o tempo inteiro recitando um texto que ninguém queria ouvir e, por isso mesmo, minha voz foi desligada. mas eu tenho milhões de perguntas, inúmeras teses, muitas reflexões, explicações que não me deixam dormir. tô esse tempo todo do dia lindo de sol que faz ali fora tentando dormir. porque é preciso. mas a cada movimento da pálpebra sobre a lente, me surge um sorriso desconfortável da noite passada, um olhar fujão do foco inicial, uma inspiração tentando captar de que é feita minha pele, uma expiração gritando por socorro, um bocejo cúmplice. e confusão. uma frase, uma pergunta. qualquer coisa me assalta no fechar da pálpebra.
e dito tudo isso... vou almoçar. já tá hora de comer de novo...
Fevereiro
Há 17 anos


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