eu digo uma coisa, entre outras: o povo está no limite. as pessoas estão no limite.
cada um desses amigos tá ali representando uma ideologia? não vejo muito assim, não. eu vejo que as pessoas estão tentando construir algum significado e procurando alguma referência para prosseguir. e, no meio disso, vai ter baderna, oportunismo, ladinismo (na minha terra, ladino é quem ganha o mundo), corpo mole, confusão (mental e intelectual).
eu deixo pra quem tomou pra si a tarefa de argumentar, mas eu estou com a impressão de que estamos de frente pra uma de duas coisas: golpe de estado ou guerra civil. olha só:
a guerra civil está em marcha faz tempo mas não chega no décimo quinto andar do meu prédio no embaré. por isso, as cores dessa guerra ainda estão pálidas, não são africanas. mas os que estão fora da letra da lei (e os que estão dentro também?) podem armar quem quiser, no momento em que interessar; e os soldados estão agora abundantes se revelando nos vândalos nas nossas avenidas. eles estavam, de alguma maneira, restritos a uma realidade que pessoas como eu (elite? classe média?) só conhecem se, como eu, têm a oportunidade. eu conheço miséria porque meu trabalho me levou pra lá. cortiço, favela, morro, fome, doença, violência por droga, por grana, morte. a guerra está prontinha faz um tempo, soldados, trincheiras, armas, estratégias. tava faltando a raiva. e ela chegou.
o golpe de estado tem um mecanismo tão simples e singelo que, se estamos desavisados, passa até por mobilização legítima e até um tanto heróica ou terna. "já que ninguém está se levantando contra os abusos, vamos nós porque amamos esse nosso país, queremos o melhor para todos e cada um de nós e vamos até as últimas consequências para construir um futuro mais justo, belo e bom." ou: "na casa que perdeu o rumo, a direção, onde tudo é todo mundo e nada é de ninguém, a presidente está perplexa (naquelas, né?), a política tomada de câncer maligno e agressivo, o povo (ralé?) está conduzindo o processo, vamos nós aqui que sabemos o é melhor para TODO MUNDO acabar de uma vez por todas com a ilusão de que o processo pode ser democrático." golpe. na calada da noite, em reuniões para poucos, os escolhidos definem como as coisas serão pra nós que estamos sob a ilusão de fazer parte.
não sei que coisa vem da direita, que coisa vem da esquerda. mas sei que uma das duas coisas haverá. pode ser que não percebamos pois, como disse, as cores não serão nítidas nem brilhantes. mas viveremos o golpe de estado ou a guerra civil.
nesse ímpeto que me acompanha desde sempre de pitacar em tudo, a audiência vai me aguentar menos ainda pois agora além de escrever eu mostro. vendo que uma das manifestações aqui de santos transcorria com organização, tranquilidade decidi empunhar a câmera e começar a dar pitacos.
algumas lágrimas me caíram por motivo estritamente pessoal quando ouvi a pequena multidão cantar o hino nacional e me levar de volta pra 1992, praça 15 de novembro, floripa, onde ajudei a derrubar o collor, mas muito mais arranjei namorado do que protestei.
descobri que preciso de um flash pra poder aprender como me virar à noite sem tripé.
descobri que, baixinha e de perna curta, passo fácil na multidão, mas chego depois dos outros colegas nas cenas importantes. aí, fotógrafas baixinhas: grudem num cinegrafista qualquer de uma emissora qualquer e sigam no vácuo dele que as pessoas vão abrir passagem.
e aprendi uma lição importantíssima: fotógrafas não devem ter unhas compridas. que o diga meu mindinho da mão esquerda com a unha quebrada no sabugo com direita a mancha roxa depois de enganchar na mochila...
O colega trabalhando.
A cara do povo.
As palavras do povo.
O povo marcha.
O povo posta nas redes sociais.
O povo registra o momento.
O povo beija.
O povo grita.
O povo toma à frente.
O Escolástica Rosa assiste.
O povo avança.
Outra luz.
Os soldados observam.
O dono do banco reflete (ou não).
O povo chama mais povo.


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