Minhas loucuras passadas

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Falo muito, sou pequena. Reclamo horrores e sou briguenta. Pinto o cabelo de tempos em tempos. Me visto de acordo com meu humor, sou gulosa demais. Gosto de ser casal e ser amiga. Adoro escrever de tudo, cartas e histórias. Amo as artes todas, inclusive aquelas que não consigo fazer. Sou a favor das diferenças, sempre. Olhos castanhos, unhas pequenas. Tímida demais pro meu gosto.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

O último Torto

O Torto acabou ontem. Claro que não acabou pra sempre. Em algum momento, as questões políticas vão mudar de foco, os problemas serão outros e, na prática, o Torto, o bar, funcionará como puder. Mas eu, que sou uma idiota romântica, vi o fim de uma era. Mais uma fase da minha vida passou ali. Uma fase frenética.
Pra quem não é de Santos, cabe uma contextualização. O Torto é um bar de quase 30 anos de idade que sempre funcionou no mesmo lugar. Tem basicamente o mesmo cheiro e as mesmas cores, uma ou outra pintura, um ou outro equipo muda de tempos em tempos, mas a ideia é a mesma há 30 anos. O Torto nasceu quando eu tinha 6 anos de idade e andava no prezinho da Tia Cecília lá em Floripa. Eu não tenho lastro nenhum pra resgatar a história do Torto, mas me fez pensar nas minhas próprias referências de formação musical e noturna. A noite se faz dentro da gente muito cedo pra quem tem predileção por ela. Eu retomei minhas primeiras noites em Florianópolis, as primeiras tribos das quais fiz parte, os primeiros músicos que me mostraram que cerveja precisa ter som. E percebi que até conhecer o Torto não houve um lugar físico tão significativo na minha história de noite. Pesquisei um bar na minha história e não achei nenhum que tivesse esse lastro. Nada é tão longevo. 
Conheci o Torto em 2003 e, confesso, não me tornei frequentadora. Era um outro tempo da minha vida e minha casa era o lugar melhor do mundo. Recém casada, sair era algo que não me apetecia tanto quanto ter os amigos em casa. E assim foi por muitos anos. O Torto sempre esteve na esquina da minha casa, estive nele talvez duas vezes num espaço de 5 ou 6 anos e bastou. Eu queria mesmo era resgatar minhas companhias do sul quando me separei e nenhum lugar santista me trazia essa paz. E muitas coisas se passaram antes de eu entrar no Torto novamente em 2010. Eu era outra pessoa.
Eu estava ansiosa pra ouvir música, queria conviver com pessoas da minha idade, pertencer a algo que me faltava desde Floripa. E, quando cedi aos apelos de uma amiga que tentou me levar pro Torto a vida inteira, eu atravessei o canal e começou a noite mais louca e longa da minha vida. 
Eu não tenho quase nada pra dizer do Torto em vista do que tem quem esteve ali o tempo inteiro ou mais tempo do que eu, eu não tenho fotos aos milhares, eu não tenho história do Torto pra contar. Mas eu tenho a minha história com ele. O Torto me trouxe um sopro de vida que eu procurava, o Torto foi o palco do meu encontro com coragens que eu pensava ter perdido há tempos. O Torto foi o lugar da minha sinceridade e dos meus enganos. Foi onde eu me apaixonei de novo quando pensei que não tinha mais cor e sangue no meu coração. Foi naquela calçadinha que meu coração bateu descompassado, sem acompanhar o ritmo do cajón. Foi ali no cantinho preferido da minha amiga que meu olhar acompanhou até os banheiros o protagonista dessa noite que durou um ano e meio. Foi no palco do Torto que uma luz amarela se pôs bem em cima do que eu sabia que mudaria minha história. Foi ali na rampa do Torto que tive dúvidas. Eu perdi um pouco dos meus sentidos no bar, desejei uma cerveja a menos, sentei totalmente desconcertada na muradinha branca. Eu vi briga no Torto, pisei em alguns pés e fui pisada sem ser tocada também. Eu apreciei músicas que ainda não conhecia e dei outro significado pra tantas outras que se reinventaram. Do Torto eu trouxe meus vícios preferidos. No Torto eu derramei umas lágrimas bem doídas e dei risadas bem sinceras. Eu vi o Torto acender as luzes e permitir a fumaça no amanhecer do dia. No Torto, eu casei sem perceber que era aquilo que acontecia a cada domingo. A cada domingo, eu estava na frente do som que é tão consistente que não é só de se ouvir, é de se ver também. E foi o som do Torto, os movimentos e a dinâmica do Torto, o compasso e a cor do Torto que deram o contexto de uma parte da minha vida que, coincidência ou não, terminou também com o fechamento do Torto.
Eu, como boa idiota romântica, encontro um significado bem pessoal. O Torto fecha quando termina meu casamento que lá começou. Isso tem um gosto de tempo que passa, de ciclo que se encerra. Eu tô de ressaca, mas não é de cerveja que começa a noite quente e termina congelada (no Torto era sempre assim). É ressaca de fim. 
Outro bar que (ainda?) não fechou abriu as portas ontem pro Torto acontecer de domingo. Mas as pessoas estavam deslocadas, parecia que tava todo mundo vestido com roupas que não serviam, sapatos do tamanho errado. Tinha uma porta pra sair e outra pra entrar. O bar era longe do palco. O palco era altíssimo, havia um espaço gigantesco em medidas de Torto entre o João Maria e as pessoas. Os Nandos:(Lee e Rebello) estavam em lados trocados. O cajón e o pandeiro do Delcinho não tocavam quase dentro do peito da gente e não tinha uma luz amarela em cima de você.
Fumei um cigarro, paguei minha comanda e vim embora pra segunda sem saber o que fazer do próximo domingo, sem saber o que fazer dos próximos capítulos da minha vida onde você não vai aparecer.
Na próxima vez que eu entrar no Torto, tudo será diferente. Serei outra novamente. Mas sempre uma idiota romântica, vendo coisas mágicas onde talvez só existam fatos. A noite que não termina parece ter chegado ao fim... E eu sinto tanto...

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