Eu tô com um biscoito da sorte na mão que diz: "Usando-se de discrição e controle, não há por que se arrepender." Lá fora, chove sem parar e minha janelinha alemã foi fechada num susto. Peraí, janelinha alemã? Alemã? Quem me segue minimamente sabe que eu estou em Joinville, portanto as janelinhas são alemãs. Quem faz parte do pedaço mais sensível da minha vida (e de suas próprias, porque compartilhadores, por assim dizer) sabe que Joinville tem as quatros estações do ano num dia, portanto chove, e chove muito.
Quem está no Facebook (e quem não está, hein, Zuckerberg?) tem vivido uma nostalgia coletiva que ganha contornos epidêmicos a essa altura do campeonato (Tharci, tô tentando descobrir o campeonato há 18 anos...). Joinville se fez por causa de uma tragédia. Como eu sou catarinense, estive no primeiro ou no segundo ou no terceiro (eu não sei) festival pois os conterrâneos queriam dar uma força pra galera que ficou debaixo d'água comparecendo em peso na Oktoberfest e no Festival de Dança. Cada se virou como pôde. Joinville dançou. Eu era um projetinho de bailarina (que nunca se concretizou tradicionalmente) com menos de 10 anos e não lembro nada.
Re-conheci a dança de Joinville já mais velha, exasperada com a difculdade de encontrar "coisas de balé" em Floripa. Era um inferno: tinha collant de helanca e sapatilha Rommel e acabou. Eu vinha comprar. Isso deve ter acontecido com um monte de projetinhos de bailarinas, concretizadas ou não.
Tinha uma outra galera num movimento diverso mas com a mesma paixão. Não é pieguice minha pois se vocês visitarem o grupo que tem bombado no Face há alguns meses, verão que "os brutos também dançam" e choram como atestam as lágrimas do meu amigo Faísca registradas numa das mais de 200 fotos postadas desde então.
E o povo da dança, tal como a "fúria negra", "ressucita outra vez". Pensando que os filhos, as contas, os quilos, o chefe teriam o poder de tirar a dança de dentro de um bailarino, nunca imaginei que os que dançaram sentem a mesma coisa que eu. Eu me achava boba e emotiva e saudosista toda vez que chorava ao ouvir "dança, joinville, dança o meu coração...", mas eu não estou só.
As fotos dos anos 1990, década em que essa outra galera se juntou em Santos com vontade de chegar não sei onde mas certa de como fazer pra chegar, estão pipocando, escaneadas, resgatadas, legendadas, doídas, sofridas, comemoradas, amadas. Como tudo que motivou a cena antes de mais nada.
Eu não estou só aos 30 e poucos anos (ou mais que isso), certa de que o que vivi foi um tempo de ternura e esclarecimento e confusão e posicionamento diante do mundo. Mas ainda devem se perguntar alguns membros do tal grupo do Face: o que faz essa moça do sul postando fotos antigas e nem tanto nesse grupo de pessoas que dançaram a dança de rua do Municipal nos anos 1990 em Santos? Ela não deveria estar lá em Florianópolis, comprando suas sapatilhas, por puro hobby, uma vez por ano em Joinville? Como ela veio parar aqui?
O meio da história, alguns sabem, viveram; essa história de amor de festival que acaba em casamento já foi cantada em verso e prosa e já arrastou muita gente pra muito canto. Minha história também foi essa. Amor de festival me arrastou pra Santos e não consegui mais voltar.
Mas o hoje dessa coisa toda é que intriga a mim mesma. Assim como a força dos 50 mil manos não desaparece jamais, Joinville faz as pessoas perderem a cabeça, se apaixonarem demais, se embebedarem demais, se inebriarem demais. Os holofotes são poderosos pois o Cau Hansen pediu cada vez mais luz, mais que a Casa da Cultura, mais que o Ivan Rodrigues. E mesmo nós mais velhos, menos resistentes, mais preocupados não conseguimos dizer que não tem tesão em dar uma passadinha em Joinville.
A gente não sabe bem o que quer aqui, o que espera viver ou encontrar, mas a gente tem certeza que uma força estranha leva a gente a dançar de novo. E podem me perguntar como alguém me perguntou essa semana ainda: mas você dançou no Dança de Rua? Eu respondo não. Nunca na vida, sou inimiga do ritmo, eu amo a dança mas ela nem me dá bola. Fica aquela interrogação que eu explico rapidamente: casei com um cara do Dança de Rua. Outra pergunta: mas você dançava, né? Rapidamente, mais uma vez: sim, faço meu balezinho, já ensaiei e coordenei grupos (coreografias do Faísca me davam gosto de ensaiar), já dei aulinhas de balé.
Desconfiada, a pessoa olha: mas ela não tá meio gordinha pra isso? Eu olho de volta em resposta: também acho, mas a dança não sai de dentro de mim... Que fazer?
Voltar pra Joinville e entrar no grupo do Dança de Rua do Brasil (Santos) no Facebook e viajar em cada foto porque cada uma delas tem uma história mais louca que a outra. Histórias sem discrição nem controle mas que contrariam o biscoito da sorte: não há arrependimento. Tem um monte de histórias que ao serem contadas mais uma vez recriam um momento e criam um outro laço, o cúmplice "eu também já passei naquela esquina", "eu já beijei naquela praça", eu já dormi naquele colégio". Eu já chorei naquele shopping, eu já gritei naquele lado da arquibancada, eu já voltei a pé com pouco casaco por aquele caminho ali daquela balada. Eu já briguei nesse bar. Eu já amei nesse palco.
E hoje, nessa tarde chuvosa do 29º Festival de Dança de Joinville, eu folheio o álbum virtual e fico cheia de um sentimento de graça mesmo pois as pessoas que chegaram na minha vida dançando e que (e se) dançaram pra fora dela ficaram numa aprendizado qualquer que resgato sempre que preciso. Essas pessoas que dançaram pra dentro da minha vida e continuam dançando (ou marcando quando o cansaço alcança) são as que entendem por que volto a esse lugar mesmo depois de tantos anos. Mesmo os mais céticos, os menos emotivos ou mais endurecidos pela vida, os mais desgarrados dessa realidade longínqua me dizem: Joinville? Caralho, fui feliz lá, aproveita!
E é o que vou fazer agora... E sabe o quê? Respondo: não, nunca dancei em Joinville. Mas como pode estar essa dança tão presente?


Um comentário:
Tava aqui morrendo de preguica, mas vou pra academia fazer uma aula de hip hop em homenagem aos nossos festivais! E pra provar que a dança ainda mora em mim, mesmo sem os gominhos da barriga!
bjsss
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