minha amiga karla, especialista em VIDA, me alertou: "ele te errou de fila...", eu - indignada - concordei e chorei e bufei. aí, chego em santos, retomo a terapia e a katia me dá essa bem no meio da cara: "você se trocou de fila, disse em alto e bom som e tom que ia se colocar naquela fila, a outra, a das panquecas."
pra quem está familiarizado com o contexto, sabe que há 2 filas. uma em que eu sou aquela coisa que acontece, intensa e às escondidas, que não fica, que não se explica, numa ilusão de ser única e especial. na outra eu sou mais uma, no chopp, na balada, com olhares derretidos no romance, assumidaça como a namorada a ser impressionada (e também traída, é o risco que se corre...), com panquecas oferecidas na manhã preguiçosa, compartilhando o fenômeno de habitar.
e aqui estou eu, como em supermercado lotado, na frente de caixa, sem conseguir decidir em que fila esperar. a fila é imprevisível. você analisa, observa se há bêbados ou idosos ou mães atrapalhadas com crianças e tenta escolher e acertar. porque você pegou a cestinha e resolveu levar mais coisa, era pra ser rápido e virou "rancho", e tá pesado e desconfortável e você quer que chegue logo a sua vez. e você se encaminha, resoluta e corajosa, praquela que parece mais promissora, mas não sabe que fim vai dar. alguém puxa uma conta de dentro da bolsa e o aparelho não lê o código de barras, um preço estava errado na gôndola ou outro não consegue contar as moedinhas... e você já em desespero pensa em largar tuuudo e sair correndo.
eu não sei, nunca soube escolher a minha fila na real. tô a ponto de abandonar a cestinha, mas a vontade daquele doce de leite que peguei mais cedo na preteleira tá me ganhando... só penso nas panquecas!


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