O inverno da época de Eduardo foi o mais rigoroso.
Não houve uma só manta
meia ou gorro
que pudesse evitar a gangrena
As luvas inócuas cobriram minhas mãos
envergonhadas
cujas extremidades pendiam
Não sentidas
Não sensíveis
Não sensitivas
Ao longo do corpo
contraído e algo cianótico
não corria nada além
dos espasmos ritmados
O inverno da época de Eduardo foi também o mais solitário.
Porque era astuto não sair à rua
Tampouco era tempo de frequentar
e ser frequentada
E ali no silêncio da casa surgia
No fim da tarde
Um tumulto
Uma confusão
Tinha ganas de sair
Em roupas poucas
E enfrentar aquela nevasca
E dizer (sem palavra)
Que estava pronta
Mas aquele era o inverno da época de Eduardo
E a verdade é que eu não estava pronta pra nada
Não tinha provisões
lenha ou bom senso
Só o desejo de seguir pela floresta desfolhada
Pelo reino em compasso de espera
Até que se fizesse claro que chegava a primavera
E Eduardo partia
Deixando que os polens incomodassem os narizes curiosos
que se debruçavam sobre as tímidas janelas meio abertas
banhadas de um sol que, se pensava, jamais voltaria
daquela ida ao outro lado das terras
Olhei para trás
E lá seguia Eduardo
Mas para o inverno me era impossível voltar
ANDREA KOWALSKI
No aguardo de setembro de 2017
Fevereiro
Há 17 anos


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