Frequentemente
as pessoas têm sonhos musicais, de consumo musical. Sonham em ver um
show desse e daquele. Eu tenho alguns que não se realizarão porque
os artistas já se foram e outros que já perdi uma oportunidade e
não sei quando terei de novo.
Eu tinha um sonho desde sempre. Bethânia.
Eu tinha um sonho desde sempre. Bethânia.
Bethânia
tocava em casa no tão comentado por aqui Sharp. Bethânia com aquela
voz. A Bethânia dos orixás da Bahia representa. Mas a Bethânia
mulher me representa muito mais. Ela se rasga. Bethânia dizia assim
pra mim… “É assim que se é mulher quando se ama”. Toda aquela
tragédia, aquele drama; mas aquela força, aquele estar ali, não
importa como nem por que, mas inteira e enorme.
Soube
que ela viria tarde demais e não consegui a primeira fila; teria
ocupado a cadeira na frente dela por qualquer preço. Mas fiquei
longe e como acontece com as pessoas que medem 1 metro e meio, na
minha frente tinha um moço de 2 metros. Eu gosto de VER música, mas
nesse caso, podia ter fechado os olhos porque ela é toda voz.
Ouvir
Bethânia me fez chorar tantas vezes, me fascinou o tempo todo, não
foi um show. Foi uma experiência. Foram vários mini-infartos,
“Negue” e “Explode coração” os principais, pois são os
pontos altos dos meus banhos.
Mas
um me pegou desavisada. Ela fez “O Quereres” e, assim como quando
Caetano fez “Queixa”, tive um momento de elevação.
Música
não é música (poema sobre notas, ou notas sobre poema) se não for
a trilha da vida. Dizem que essa música está de novo em moda, por
conta de uma novela. Eu não tenho TV, portanto a novela não me diz
nada. Mas nem precisa. Porque O quereres entrou na trilha da vida
real há pouco tempo, de um jeito bem Bethânia.
Depois
de ter visto há dois dias Bethânia imprimir “O quereres” na
minha carne, a versão de Caetano se provou clássica, mas não
minha. O meu Quereres é de Bethânia. Não só porque ela declama
(com notas de outros instrumentos ou não), mas porque ela marca a
frustração e a libertação que é esse querer.
Bethânia
declamou bastante, como pode ser tão linda, como mostra esse vídeo
aí… Mas “O quereres” foi cantada, imagino que na versão da
tal novela, e enquanto a provável maioria ali se lembrasse do
personagem ornado pela trilha, eu só vivia as minhas cenas.
“eu
queria querer-te e amar o amor
construir-nos
dulcíssima prisão
e
encontrar a mais justa adequação
tudo
métrica e rima e nunca dor
mas
a vida é real e de viés
e
vê só que cilada o amor me armou
eu
te quero (e
não queres)
como sou
não
te quero (e
não queres)
como és”
Frustrada,
com raiva, depois magoada e sofrida. Por ter tanto desse amor de
conflito que não pode nunca existir no concreto, porque não cabe em
lugar nenhum. Fica se esparramando pela cama, transbordando nos
abraços.
Impossível
de ser contido, esperneia, se debate, se rebela; pra
logo serenar na libertação do entendimento, da clarificação.
Era
cilada.
EU
TE QUERO (e não queres) COMO SOU


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