Há algum
tempo, eu vinha experimentando um daqueles momentos em que a gente se
transforma. Eu andei me perguntando se estava feliz no meu trampo. E a resposta
surpreendente, pela primeira vez na vida, foi “não”. Eu não estou feliz. E como
eu não sei fazer coisa alguma e estar em lugar algum que não me faça
desesperadamente feliz… comecei a me debater. Achei que era uma coisa, depois
outra e terapia e terapia… e me vi sentadinha numa carteira escolar prestando
vestibular num sábado à tarde.
O caminho
que eu percorri pra chegar vestibulanda com um chocolate e um copo d’água
oferecidos pela universidade foi bem tortuoso. Tem um pouco de dor pelo serviço
público que maltratou meus princípios nos últimos tempos e a percepção de que
tenho 36 anos e um perfil nada adequado a me lançar no mercado de trabalho
procurando novo emprego que me leve pra longe da safadeza política que tenho
que manejar todos os dias.
Tem um pouco
de luto pelo ciclo que termina. Fui psicóloga por quase 15 anos. Fiz essa
carreira por opção, era o que eu queria e o que me via fazendo. Mas eu não
contava em me apaixonar pelo tema adjacente da minha carreira escolhida e
amadurecer um amor. De repente, eu acordei de manhã e me caiu a ficha de que eu
amo a aids. Mais do que amo a psicologia. E diante de um cotidiano que paradoxalmente
(já que trabalho num SAE em aids e hepatites) me afastou da aids… well,
precisei ajustar a rota.
E fui
tateando, e pensando em outras coisas pra fazer dentro da prefeitura e tomando
informações até entender que eu queria mesmo era ser outra coisa. Não queria
mais ser psicóloga. Vou continuar a sê-lo por um bom tempo ainda (e com o mesmo
compromisso) porque esse plano maluco e delicioso que eu fiz inclui uma grana
que mais ou menos não tenho e 4 anos de estudo que eu nem sei se dou conta… Mas
por que não?
E então, na
semana em que se comemorou o dia do professor, eu coloquei os óculos e respondi
uma prova e conforme ia avançando nas questões, ia pensando que não estava tão
louca assim se considerasse me classificar pro curso. E muitos professores meus
passaram por mim naquelas 3 horas. E cada um deles me lembrava de alguma coisa
esquecida há 20 anos atrás.
Mas foi só
no outro dia, na ressaca brava que se seguiu à festa que fui depois do
vestibular, quando eu conferia o gabarito, que eu tive certeza que fui e tenho
sido muito feliz no processo de aprender. Tive a oportunidade e muitas vezes o
privilégio de aprender e construir conhecimento com pessoas especiais. Minha
família toda de um lado é feita de professores. Gente que provavelmente foi
responsável pela minha desenvoltura nesse quesito.
Eu sempre
fui preguiçosa e indisciplinada, mas nunca perdi uma oportunidade de prestar
atenção em alguma coisa legal que alguém tivesse pra ensinar. E foi assim que
mesmo 20 anos depois de sair do colegial (sim, eu ainda cursei o colegial), eu
passei na tal prova que me propuseram e sou caloura.
Tá tudo
diferente, e me assustei um pouco com os jovens de 20 anos saindo da prova
cansados e abatidos, tendo achado muito difícil aquilo tudo. Pensei comigo que
algo estava errado pois tinha achado a prova fácil e o que errei foi o que
esqueci, mas que um dia com toda certeza eu soube. Fiquei muito feliz por mim e
muito triste pela situação em que deve estar o ensino no nosso país quando na
segunda eu me deparei com o meu nome no topo da lista, no primeiro lugar, tendo
deixado pra trás todos os meus futuros colegas biomédicos.
E me senti
de novo como só a velha e boa Clarice sabe descrever, totalmente vermelha pelo
pudor que se tem diante daquilo que é grande demais. Em êxtase de alegria pura
e legítima. Porque é tudo novo, tudo outra coisa. E essa sensação me lembra
como é bom largar pra trás alguma coisa que já teve seu tempo e abrir espaço
pro novo existir. E encantar…


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