Minhas loucuras passadas

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Falo muito, sou pequena. Reclamo horrores e sou briguenta. Pinto o cabelo de tempos em tempos. Me visto de acordo com meu humor, sou gulosa demais. Gosto de ser casal e ser amiga. Adoro escrever de tudo, cartas e histórias. Amo as artes todas, inclusive aquelas que não consigo fazer. Sou a favor das diferenças, sempre. Olhos castanhos, unhas pequenas. Tímida demais pro meu gosto.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Caloura

Há algum tempo, eu vinha experimentando um daqueles momentos em que a gente se transforma. Eu andei me perguntando se estava feliz no meu trampo. E a resposta surpreendente, pela primeira vez na vida, foi “não”. Eu não estou feliz. E como eu não sei fazer coisa alguma e estar em lugar algum que não me faça desesperadamente feliz… comecei a me debater. Achei que era uma coisa, depois outra e terapia e terapia… e me vi sentadinha numa carteira escolar prestando vestibular num sábado à tarde.
O caminho que eu percorri pra chegar vestibulanda com um chocolate e um copo d’água oferecidos pela universidade foi bem tortuoso. Tem um pouco de dor pelo serviço público que maltratou meus princípios nos últimos tempos e a percepção de que tenho 36 anos e um perfil nada adequado a me lançar no mercado de trabalho procurando novo emprego que me leve pra longe da safadeza política que tenho que manejar todos os dias.
Tem um pouco de luto pelo ciclo que termina. Fui psicóloga por quase 15 anos. Fiz essa carreira por opção, era o que eu queria e o que me via fazendo. Mas eu não contava em me apaixonar pelo tema adjacente da minha carreira escolhida e amadurecer um amor. De repente, eu acordei de manhã e me caiu a ficha de que eu amo a aids. Mais do que amo a psicologia. E diante de um cotidiano que paradoxalmente (já que trabalho num SAE em aids e hepatites) me afastou da aids… well, precisei ajustar a rota.
E fui tateando, e pensando em outras coisas pra fazer dentro da prefeitura e tomando informações até entender que eu queria mesmo era ser outra coisa. Não queria mais ser psicóloga. Vou continuar a sê-lo por um bom tempo ainda (e com o mesmo compromisso) porque esse plano maluco e delicioso que eu fiz inclui uma grana que mais ou menos não tenho e 4 anos de estudo que eu nem sei se dou conta… Mas por que não?
E então, na semana em que se comemorou o dia do professor, eu coloquei os óculos e respondi uma prova e conforme ia avançando nas questões, ia pensando que não estava tão louca assim se considerasse me classificar pro curso. E muitos professores meus passaram por mim naquelas 3 horas. E cada um deles me lembrava de alguma coisa esquecida há 20 anos atrás.
Mas foi só no outro dia, na ressaca brava que se seguiu à festa que fui depois do vestibular, quando eu conferia o gabarito, que eu tive certeza que fui e tenho sido muito feliz no processo de aprender. Tive a oportunidade e muitas vezes o privilégio de aprender e construir conhecimento com pessoas especiais. Minha família toda de um lado é feita de professores. Gente que provavelmente foi responsável pela minha desenvoltura nesse quesito.
Eu sempre fui preguiçosa e indisciplinada, mas nunca perdi uma oportunidade de prestar atenção em alguma coisa legal que alguém tivesse pra ensinar. E foi assim que mesmo 20 anos depois de sair do colegial (sim, eu ainda cursei o colegial), eu passei na tal prova que me propuseram e sou caloura.
Tá tudo diferente, e me assustei um pouco com os jovens de 20 anos saindo da prova cansados e abatidos, tendo achado muito difícil aquilo tudo. Pensei comigo que algo estava errado pois tinha achado a prova fácil e o que errei foi o que esqueci, mas que um dia com toda certeza eu soube. Fiquei muito feliz por mim e muito triste pela situação em que deve estar o ensino no nosso país quando na segunda eu me deparei com o meu nome no topo da lista, no primeiro lugar, tendo deixado pra trás todos os meus futuros colegas biomédicos.

E me senti de novo como só a velha e boa Clarice sabe descrever, totalmente vermelha pelo pudor que se tem diante daquilo que é grande demais. Em êxtase de alegria pura e legítima. Porque é tudo novo, tudo outra coisa. E essa sensação me lembra como é bom largar pra trás alguma coisa que já teve seu tempo e abrir espaço pro novo existir. E encantar…

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