há uns meses atrás escrevi sobre "se encontrar". só queria contribuir com outros dois textos já escritos sobre essa coisa de a gente saber o que quer e ser feliz.
boa parte de se encontrar fica do lado de dentro. não são necessárias voltas ao mundo pra chegar a uma conclusão qualquer sobre nós mesmos.
porém, às vezes, é preciso se deslocar, sim. como um movimento complementar, como se fosse necessário externar algo que se consolidou dentro, ou o contrário. frequentemente me faz sentido o "fake it until you make it". por vezes, a gente sabe o que quer, até sabe como chegar, mas a desgraça é que saber não é sentir. e aí, quando a luz se apaga e só sobra o travesseiro... a gente tem mesmo que fingir que está resolvida uma parada que ainda não está. a gente finge pra sobreviver até de fato conseguir chegar no lugar que se finge estar.
nesse ano, eu precisei de fato camelar os quilômetros físicos pra chegar em certas conclusões. enquanto fazia o trabalho interno, fiz meu corpo enfrentar o frio, e o calor, a chuva e o vento. pra ter a certeza de dizer: eu fui, eu vivi cada pedaço daquela experiência, pra não esquecer nunca mais o gosto de sentir aquilo que eu já sabia dentro de mim: isso não é seu.
eu já ouvia minha própria voz nessa ladainha: isso não é seu. e eu respondia: não importa, eu vou mesmo assim. não basta saber que não é pra mim, precisei SENTIR essa não pertença. precisei sentir que aquilo não faz mais sentido, não combina.
porque se a coisa não se esgotasse nela mesma, se eu não experimentasse o vazio total de ver a coisa desaparecer diante dos meus olhos, sobraria possibilidade. porque no mundo tudo pode.
era preciso ver o vazio. ele não é preto, nem branco. é imenso e é ponto invisível. é a terra arrasada ou mata fechada. é vazio de sentimento e de sentido. é algo que não se experiencia, não se vive mais.
e precisava sentir assim pra virar as páginas.
talvez cada um tenha o vazio que precisa ter. acho que descobri o meu. um pouquinho antes dos 40, que é momento bem propício. abraçar o vazio que me é designado. não definitivo, não obrigatório. mas designado pela circunstância e saber que ele só poderá ser preenchido na próxima curva, se for.
um pouco como aprender a respirar. inspirar, trazer pra dentro, na hora em que se deveria expirar tem resultados pífios. e inverso é total verdade. inspirar é recolher força pra alçar o voo, é juntar tudo que se tem dentro, todas as ferramentas necessárias pra jornada. expirar é aplicar o recurso, tudo que estiver disponível pra te lançar no prazer de viver aquela coisa até o fim, até o ar acabar. pra então, inspirar novamente.
acho que eu terminei uma expiração longa e intensa. juntei tanta coisa ao longo dos últimos tempos, forças, decisões, conflitos. e quando comecei a expirar, os movimentos foram fortes e significativos. não teve braço que me abandonou e perna que fraquejou. da boca do estômago me veio uma coragem até bonita. força pra chegar em todo canto do mundo que precisava; não me faltou.
e agora, estou vazia. a expiração terminou, nada tem mais em mim, nem ar.
agora sim, começo a inspirar novamente. começo a selecionar o que vai me inspirar ao mesmo tempo que o ar for enchendo meus pulmões e todo o resto.
ainda bem que a tristeza é bela, porque ela sempre se faz nessa parte da estrada. aquele breve momento onde se está completamente vazio, o último segundo do expirar. é o lugar da tristeza do que se acabou. mas é bonito demais pra se dispensar...
Fevereiro
Há 17 anos


Um comentário:
bucólica tristeza, dentro da possibilidade vivida ao se esvaziar, esgotando todas as possibilidades de algo.
novo respirar, mais leve no vazio, sem carregar o acúmulo das velhas coisas existentes só na nossa mente aprisionada numa condição ilusória.
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