Minhas loucuras passadas

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Falo muito, sou pequena. Reclamo horrores e sou briguenta. Pinto o cabelo de tempos em tempos. Me visto de acordo com meu humor, sou gulosa demais. Gosto de ser casal e ser amiga. Adoro escrever de tudo, cartas e histórias. Amo as artes todas, inclusive aquelas que não consigo fazer. Sou a favor das diferenças, sempre. Olhos castanhos, unhas pequenas. Tímida demais pro meu gosto.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

paciência e limite

me parece que eu tenho hoje um tipo de liberdade que superou o tradicional "ninguém paga minhas contas". quando eu comecei a estudar psicologia eu tava numa fase bem mais sombria pós adolescente e gostava muito das trevas. a sordidez de algumas passagens de bukowski, a densidade dos russos clássicos, sartre todo "não quero falar do que vocês estão falando". aí, eu deixava o que fascinava todos os estudantes pra trás: a psicanálise.
depois, quando comecei a minha terapia, não tive logo de cara a experiência psicanalítica. mas ok. procurei outras linhas e depois fui conversar com freud. eu andava tão ansiosa pra dar conta de umas coisas que não parei muito pra apreciar o processo. e confesso que a terapeuta me devolvia umas coisas que eu deveria estar mais sensibilizada pra ouvir, pensava eu na minha ilusão de ser psicóloga.
e, de vez em quando, ela me falava em culpa e eu não conseguia me aproximar dessa parada. o máximo que chegava perto era de uma reflexão em relação às culpas católicas que boas meninas educadas em colégios de padres e freiras aprendem a carregar desde cedo. e, como essas culpas nunca me atingiram no fígado, não me parecia que valia a pena escarafunchar isso.
bueno, eis que se deita no divã e todo o novo velho mundo se abre pra você. e, aos poucos, você vai criando coragem pra confrontar suas merdas todas. tô eu ali entretida nessa tarefa quando de repente faz sentido a palavra culpa. tão exatinho que chegava a ser uma pintura. nem vou me alongar aqui nos detalhes do processo.
mas o resultado dele foi encontrar um lugar bem legal pras minhas culpas. a ponto de fazer pazes internas com uma pá de gente e comigo mesma e, principalmente, me despedir daquilo que não rola mais. SEM CULPA. sem precisar postar frases de efeitos em qualquer rede social na tentativa de convencer a mim mesma que "posso fazer o que quiser porque eu sou mais eu e pago as tais das minhas contas."
como um barquinho tranquilo, fui deslizando (e plagiando a música) pelo meu azul que eu não preciso explicar pra ninguém. mas é fato que o resultado disso é não precisar esconder os meus desejos, nem de mim e nem da audiência.
ando muito confortável em querer o que eu quero, do jeito que eu quero. pena que vez por outra preciso embarcar numa partilha de culpa do outro que não consegue ainda fazer pazes e lidar com o tamanho e a intensidade dos seus desejos.
eu também tropeço de vez em quando. me sinto culpada e com vergonha dos meus desejos. mas não é por isso que embarco na piração do outro. acho que embarco nessa piração porque também sei que posso me ver privada do que tanto desejo se o outro espanar.
paciência e limite.

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