Minhas loucuras passadas

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Falo muito, sou pequena. Reclamo horrores e sou briguenta. Pinto o cabelo de tempos em tempos. Me visto de acordo com meu humor, sou gulosa demais. Gosto de ser casal e ser amiga. Adoro escrever de tudo, cartas e histórias. Amo as artes todas, inclusive aquelas que não consigo fazer. Sou a favor das diferenças, sempre. Olhos castanhos, unhas pequenas. Tímida demais pro meu gosto.

domingo, 25 de agosto de 2013

morte real e virtual

uma prima perdeu uma amiga. como eu sei disso? o facebook me contou. em algum momento, notícias do cotidiano demoravam um tempo pra chegar a ouvidos e muitas vezes nem viravam notícia, talvez virassem um comentário numa conversa posterior e fim.
essa notícia que não me diz respeito diretamente, mas chegou até mim através das atualizações que correm freneticamente no cantinho direito. minha prima atualizou seu status dizendo que sentia muito a morte da moça amiga, citando o nome dela e linkando (essa palavra já tá no dicionário de português - lincando talvez?) para o perfil dela. minha prima fez uma homenagem singela e curta, sentida e bonita. que fica, por conta do link, no mural dela e da moça. e foi isso que me pôs a pensar.
fiz um monte de considerações a respeito. a primeira delas tem a ver com o fato de eu saber dessa notícia que eu não saberia se não fosse o facebook. não falo seguidamente com essa minha prima, não conhecia a moça. mas sei que neste domingo faleceu uma moça de 33 anos, cujo aniversário foi ontem, de infarto durante o sono da noite. sei também que ela era muito querida, que fazia dança do ventre e era fotógrafa. o facebook me contou tudo isso em poucos minutos. a vida da moça ainda pulsava na rede social enquanto ela era velada e pessoas que a amavam muito sofriam e curiosamente deixavam recados diretos pra ela, na sua linha do tempo.
e isso me levou à segunda consideração. a vida da moça não acabou quando o coração dela parou. o facebook é uma outra vida que caminha independente do concreto. o facebook é o lugar onde o desejado é o real. e isso é perigoso em certa medida. enquanto as pessoas iam mandando recados pra ela como se ela ainda estivesse viva e fosse passar um tempo fora e as mensagens estivessem ali a título de despedida até a volta. como se a moça pudesse responder tão logo recobrasse o sinal do celular, ligasse o tablet etc. não quero falar aqui da relação que cada um tem com o divino, a ideia de deus, e a religiosidade, já sabendo pra algumas doutrinas a moça tem outra vida, ou voltará quando deve, ou vai viver vida eterna, enfim. não quero falar disso porque a dor das pessoas é amenizada frequentemente pela ideia de deus e isso basta para o momento. mas a vida da moça no facebook pulsa. a notícia se espalha, as fotos começam a acompanhar os comentários sofridos e estupefatos. eu chorei. chorei a morte da moça desconhecida andando pela vida dela de uma forma tão íntima como se ela fosse uma colega de colégio ou trabalho. e é isso. o desejo de tê-la de volta pode ser realizado no facebook através de fotos, troca de informações, rememorações, comemorações registradas. como se a linha do tempo da moça ali registrada pra sempre na rede social bastasse realmente pra ter a moça de volta. na rede social, o desejo de que uma festa muito boa não termine se realiza, porque você pode viver e reviver os momentos com fotos e vídeos e os comentários dos presentes. o desejo de não ter mais contato com alguém que te machucou se realiza com o botão de bloquear; a pessoa é varrida do mundo com um clique. e funciona. pois ficamos muito tempo na internet e diminuímos muito a possibilidade daquele encontro constrangedor com fulano na fila do banco. aliás, não vamos mais ao banco. há algum tempo atrás, dividir uma dor, pedir um conselho, compartilhar uma vitória, saborear um prazer era algo que demandava a presença e algum esforço de articulação. precisávamos nos reunir numa ocasião e falar. também tivemos cartas, emails, telefonemas. claro. mas hoje clicamos. a intimidade que era um pouco mais restrita agora se espalha sem vergonha por todo canto. sei que a moça morreu, sei quem está inconsolável, sei quem estava afastado dela. sei. sei. sei muito, sei quase tudo. sei como as pessoas perigosamente estão se apegando à ideia de não morte da moça e desejando tê-la de volta pois a vida virtual dela segue intocada e intocável.
e me peguei então considerando a terceira coisa. e se eu morrer hoje à noite, durante meu sono? devo ter chorado também pelo choque que traz a morte que consideramos prematura. a moça tinha a minha idade. devia estar preocupada em trabalhar, namorar, dançar, ter amigos (o facebook me contou). não tinha decidido ainda se queria ser enterrada ou ser cremada. não tinha tomado providências. não tinha escrito um testamento ou uma carta dizendo coisas pras pessoas ou deixando instruções. assim como eu. ela não deixou as senhas dela!!!
e é aí que eu considero a quarta coisa que junta tudo isso: se eu morrer hoje à noite, ninguém vai conseguir com facilidade ou não vai conseguir mesmo terminar minha vida virtual pra que ela acompanhe minha morte concreta. ninguém sabe as minhas senhas. a vida virtual também é o lugar do controle total. eu posto o que quiser, na hora que quiser, eu me "mato" numa rede social na hora que quiser pra "reviver" uma semana depois se assim quiser. eu moro em vários lugares pois posso ter 100 contas de email. eu posso estar morta pra alguns e viva em detalhes pra outros. eu posso estar sempre sem defeitos. rever minhas palavras antes de colocá-las pro mundo. eu posso tudo. eu controlo o necessário pra atender qualquer desejo. ali, o acaso não acontece. como na vida concreta que caprichosamente ou não determinou que a moça morreria um dia depois de seu aniversário de 33 anos. se alguém não tiver as senhas dessa moça, ela viverá para sempre. mas não estará lá.
ninguém tem as minhas senhas. preciso tomar essas providências. mas não hoje. hoje morreu uma moça de 33 anos que eu não conhecia e vou pensar um pouco sobre a morte. a virtual e a real.

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