Minhas loucuras passadas

Minha foto
Falo muito, sou pequena. Reclamo horrores e sou briguenta. Pinto o cabelo de tempos em tempos. Me visto de acordo com meu humor, sou gulosa demais. Gosto de ser casal e ser amiga. Adoro escrever de tudo, cartas e histórias. Amo as artes todas, inclusive aquelas que não consigo fazer. Sou a favor das diferenças, sempre. Olhos castanhos, unhas pequenas. Tímida demais pro meu gosto.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Morte, festas e trapaças

Essa semana que passou conseguiu contemplar muito mais do que o clima de Santos que dizem fazer as 4 estações num dia sem ser Vivaldi. Em resumo, os acontecimentos me colocaram de frente pro absurdo, nua, com a alma exposta, sem chance de segurar o peito como sempre faço. E minha reação foi chorar, como sempre. Por tudo: o que feriu e o que consolou.

Ponto de ônibus, segunda, chuva, e o sol só na minha cabeça porque tenho um guarda-chuva amarelo. Toca o celular e eu acho muito estranho. Me ligam de longe pra dizer que não há boas notícias. É o tipo de coisa que antecede notícia de morte. E o André me fala: o Lucas morreu. Meu peito aperta e falta ar por 7 segundos. Não tem tempo pra mais nada a não ser dizer boa viagem e dá um beijo no Fred. Chocada. Todos os clichês do mundo me passaram na mente, racionalizar dá nisso. Em clichês. Não estávamos próximos, talvez nunca tenhamos sido. Mas meu amigo Paulinho que me viu chorar ao telefone diz que é uma referência que se vai. Ele tem toda razão e lembrei que em 1996, passei muitas tardes garimpando pedaços de músicas e mandava pro Lucas um pedacinho por dia em cartas sociais. São paixonites adolescentes. Um desses pedacinhos era um estudo para piano, acho eu que do Mário Mascarenhas. Copiei as notinhas todas num caderno velho de teoria musical. Um dia eu podia ter sido musicista sem talento algum (e fui). Lucas partiu. E Natália me representou na despedida no Jardim da
Paz. E o estudo para piano fica pra mim como trilha de algumas doses de gim.

Morte pode ser acompanhada de festa, ou antes, pode coincidir com festa. E falava nesse mesmo dia com a Mar que se encaminhava pra inaugurar idade nova. E morada nova, e o frio na espinha que se sente quando a decisão é acertada, mas vai nos levar a caminhos incertos. Uma vez, eu escrevi um texto que começava assim "Minha vida é um eterno desistir..." e essa frase já não cabe mais, como bolsa que saiu de moda. Quero pensar que um pedaço da vida é um eterno despedir-se. Despedida pede festa, eu sempre penso isso. Choro e não quero me desapegar, mas em algum lugar experimento Clarice, pudor daquilo que é grande demais. Ela dizia que adivinhava a festa que seria se tornar ela mesma. Clarice sabe o que diz. Marcele tem adivinhado a festa. Eu, já prontinha pra ser adicionada nessa barca, fui trapaceada.

Tomei uma rasteira na sexta, quando pensei que a cota de bafão da semana já tinha estourado. Tinha feito uma sessão de hora e meia com a Katia na quarta e estava tudo exposto em absurdo, reservado e descansando pra ser temperado e digerido mais tarde, no jantar. Mas na sexta, eu tropecei em mim mesma e, como uma criança, chorei de raiva de não ter dito o que queria do jeito que queria. De ter sido ingênua em acreditar que tinha condições de manejar uma situação de embate no trabalho. Raiva de descobrir mais uma vez minha imaturidade. Trabalhar no SUS tem dessas coisas. As pessoas vêm com pacotes insuspeitados de dor, exclusão e culpa no cartório. E eu estava ali, na reta certa dessa frustração. Fiz meu melhor, mas não foi o adequado. Terminei o dia ofendida e magoada, xingada e ameaçada. Sem medo. Mas muito despida. Só resta "interpretar e devolver". E torcer pra que segunda não se abra a porta do inferno na unidade de saúde.

Que semana horrorosa. Sapatos vermelhos. Essa é a solução!

Nenhum comentário: