Mas eu tenho vivido umas cenas sozinha, sem companhias, que me remetem aos tempos lá de trás. Tempos "das gurias". Tempo em que minha mãe perguntava "as gurias também vão?", "que gurias estavam lá?" A gente se enfiando em cada buraco esquisto, em horas avançadas e sem bom senso algum. Mas nada podia dar errado. Porque aquele era o "tempo das gurias".
Esse tempo, como não podia deixar de ser, tinha trilha sonora riquíssima. No "tempo das gurias" se forjou toda a minha escolha musical, a trilha sonora da minha vida foi decidida por volta daqueles anos de 17. Uma influência aqui e ali de pai e mãe, avô boêmio, tio muito próximo da minha idade; mas foram as descobertas junto das gurias que me levaram a definir quais são os versos que cantam a minha vida. Os shows, as roubadas, os desencontros, as fitas cassete trocadas, os cds comprados com as economias dos primeiros trampos. Esse foi o momento em que escolhi os meus versos.
Hoje eu já penso duas vezes antes de ir num show enorme, enfrentar mais de seis horas de pé; sem enxergar quase nada, é bem verdade. Mas tenho ido em cadeirinhas quase confortáveis. Um amigo muito querido me disse uma vez: "show tem que ir, não pode perder". E eu pensei... Por que não tenho ido tanto?
Pra preencher essa lacuna, eu fui. E quando eu sentei ali na cadeirinha da seção vip, quase debruçada no palco (porque hoje não precisa mais pedir convite por falta de mesada que cobrisse os custos da empreitada), eu olhei pro lado e pensei... Esse seria o momento que duas ou três de nós fumaríamos um cigarrinho compartilhado (lá dentro, sim... sou dessa época), outras duas iriam ao banheiro e outra teria se perdido em assuntos urgentes.
E estaria feliz, antecipando as letras que cantaria, tendo as gurias do meu lado, pra não me deixar mentir sozinha sobre os eventos da noite na manhã seguinte.
Então, com saudades, sim; mas também com outro sentir que não tem nome, fica entre amor, parceria, reconhecimento, ternura; eu digo que "as gurias todas estavam lá, não faltou uma..."


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