Minhas loucuras passadas

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Falo muito, sou pequena. Reclamo horrores e sou briguenta. Pinto o cabelo de tempos em tempos. Me visto de acordo com meu humor, sou gulosa demais. Gosto de ser casal e ser amiga. Adoro escrever de tudo, cartas e histórias. Amo as artes todas, inclusive aquelas que não consigo fazer. Sou a favor das diferenças, sempre. Olhos castanhos, unhas pequenas. Tímida demais pro meu gosto.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Só as mães são felizes...

Concluí há uns dias a leitura do livro que dá o relato da Lucinha Araújo sobre a relação dela com o filho Cazuza. Não quero chamar de biografia do Cazuza porque não é. É a história da Lucinha, da aids, de um filho, de um artista. É a história da relação dos dois.
Claro que nenhuma lágrima foi suficiente ao relembrar o Cazuza que morreu de aids. A aids é um acontecimento na minha vida. Ainda hoje minha relação com essa doença atravessa todas as minhas esferas; profissional, pessoal, afetiva, sexual, intelectual. Sou uma trabalhadora da aids. Uma pessoa que vive em tempos de epidemia. Uma mulher que transa com a aids potencialmente na cama. A luta de uma mãe pra salvar o filho do até então desconhecido comove porque é vista em cada esquina. Mães são leoas. Mães enquanto mães se percebem invencíveis. Mas a aids... Ela é muito mais que uma doença em si. Ela é a possibilidade de rever toda uma sociedade. Eu já tive muitos momentos com ela. O que mais me acontece ainda hoje depois de tantos pacientes é chorar no banheiro. Quando morre alguém, quando revelo e desnudo o diagnóstico que obriga o outro a se reposicionar. Quando perco uma batalha e recebo alguém que conheci soronegativo na nova condição de soropositivo. Mas eu prezo cada lágrima. Significam pulso. Significam ternura diante de tantos que já se foram, se perderam, de tantas dores físicas e outras. Lucinha não poderia dizer do que Cazuza "sentia" como soropositivo melhor do que ele próprio. O livro recorre a algumas falas dele, mas sempre pelo filtro dela. E é sobre isso que fala esse relato. Da caminhada de uma mãe.
E porque fala da caminhada de uma mãe, o filho Cazuza aparece multifacetado. Mas sempre um filho. Eu tive muitos momentos de certa reprovação se é que me assiste o direito de julgar uma mãe não sendo uma... Mas Cazuza foi um menino mimado. E paradoxalmente oprimido pela necessidade de ser alguém adequado. E aprontou. E aprontou. E sempre foi salvo pelos pais ricos e influentes. Como qualquer pessoa com apenas duas décadas de vida, estava perdido. Só que Cazuza se perdia em Paris, na Suíça. Nada de mais... O ônibus ou o avião ou o carro te levam até onde vc pode pagar. Mas quando Cazuza se encontrou nas letras... Tudo isso ficou menor. Pelo menos pra mim. Porque as letras de Cazuza falam comigo. Claro que ele ter sido um boêmio, um bissexual, um amante do álcool e das outras coisitas fazem as palavras dele serem exatamente o que são. Mas a partir da hora que elas falam comigo... Passam a ser minhas.
Cazuza nasceu 20 anos antes de mim. Viveu uma outra época. Mas o que eu vivi quando tinha 20 anos e ele teria 40 se não tivesse morrido aos 32, pode ser cantado em verso e prosa pelo que ele produziu. E viveu. As drogas, o sexo (já irremediavelmente ligado à camisinha), a poesia...Tudo me faz muito sentido. Não nos detalhes (sou uma mulher de cervejas e ele um homem de uísques, meus baseados são ocasionais e os dele constantes, meu sexo é desafiador e o dele era no limite), mas o contexto.
E ler o livro da Lucinha me deu um sopro de vida na figura das crianças da Viva Cazuza e uma oportunidade de revisitar meus vinte anos nos versos do filho querido dela.
 E nada pode ser mais alentador do que você encontrar na fala de um cara que você não conheceu uma explicação rápida e certeira de como é possível ser uma bêbada que gosta de sol e...
Uma romântica tradicional monogâmica que tem muitos amores de cada vez...

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