Minhas loucuras passadas

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Falo muito, sou pequena. Reclamo horrores e sou briguenta. Pinto o cabelo de tempos em tempos. Me visto de acordo com meu humor, sou gulosa demais. Gosto de ser casal e ser amiga. Adoro escrever de tudo, cartas e histórias. Amo as artes todas, inclusive aquelas que não consigo fazer. Sou a favor das diferenças, sempre. Olhos castanhos, unhas pequenas. Tímida demais pro meu gosto.

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Elisabeth Roudinesco – Psicotrópicos e sofrimento psíquico ou qual é a tua droga?



Tava aqui tentando retomar meu estudo de parasitologia, depois da pausa (hoje tava veg e supergord com grão de bico e nhoque de batata), e me deparei com esse vídeo guardado pra assistir depois. Pensei: é agora!

Uma psicanalista pra enfeitar os carrapatos e amebas e que tais que vêm fazendo a minha terça, discutindo remédios psiquiátricos ou, pra ser chique, psicotrópicos. Nada de novo no fronte. A gente discute essas drogas desde sempre e é chato: cai num debate raso entre a força de vontade do indivíduo pra resolver os seus problemas e a voracidade da indústria farmacêutica. Mas eu não quero saber de nada disso. Eu quero é saber das drogas. Eu quero falar de vício.

Vou deixar a psicóloga em outro lugar porque essa psicóloga aqui sempre fugiu obstinadamente de trabalhar os vícios alheios pois considera que os seus próprios já estão de bom tamanho. Falar de vício da perspectiva da doença é coisa trivial. A palavra em si já causa uma repulsa pela representação daquele moribundo, acabado fisicamente pelo efeito de droga qualquer. E quando o vício tá vestido primaverilmente de saúde? Ou da ilusão da saúde? Onde tá mesmo a linha que determina o turning point pras trevas?

Eu sou uma viciada. Em adrenalina emocional. Eu descobri isso no sofazinho da Kátia. Ou pelo menos, foi lá que eu dei nome pra esse negócio (eu adoro classificações, pontitos e subseções; faço rebeldemente as minhas próprias, inclusive).

Preciso da minha droga pelos mesmo motivos que alguém precisa de cocaína, nicotina, sexo, álcool, comida, violência: pra lembrar e pra esquecer. O mecanismo do vício, e não ele em si, é que me interessa (lá se foi a biomédica pelo ralo, welcome back, psicóloga...).

Uma vez, um médico que trabalhava comigo inocentemente me disse: "eu não tenho vícios"... E o tempo, sacana, não me deu a oportunidade de descobrir qual era o vício dele. Porque o vício estava entendido como dependência química. Que pena... Se fosse só isso, tava resolvido o problema com todos os inibidores, antagonistas, agonistas e sabe lá o que mais de tudo que é neurotransmissor que tem por aí... Seria só abrir o sistema nervoso pra balanço e reorganizar o salão com as cadeiras certas em quantidades certas para as bundas certas. Vício é outra parada.

É o mecanismo pelo qual você se sente vivo quando nada (ninguém?) mais te faz sentir e pelo qual você se anestesia quando tudo te faz sentir coisa demais. Quando você se vê incapaz de suportar o posto pela vida, você tem um mecanismo (todo mundo tem um) pra lidar com aquele negócio. Tem gente que acorda uns monstros orgânicos e faz uma esquizofrenia ou coisa assim. Tem gente que se abraça em todos os pequenos traços compulsivos que pode encontrar em si e manda ver numa nova organização de vida em que tudo tem a ver com o equilíbrio do mecanismo do vício e a desarmonia de uma pá de outras coisas.

Tem uns momentos que fica muito claro que aquilo ali tá dando ruim. Quando a droga de escolha é ilícita, perigosa, marginalizada, as caras das "pessoas de bem" se retorce num estranhamento típico de quem nunca se olhou por mais de cinco minutos. E lá se vão os fracos, craqueiros, cheiradores, bêbados (aos mais conservadores), maconheiros e afins; pra serem carimbados, os viciados, os que se perderam, os fracos.

Mas tem uns momentos, intrigantes estes, que a coisa é bem mais confusa, será que tá bom ou que tá ruim? Quanta academia ou corrida é atividade física demais? Quanto sexo é necessário pra curar uma decepção ou pra se sentir amado novamente? Quanto chocolate é suficiente pra se dar um prazer gastronômico ou administrar um desânimo com a vida? Quando é que aquela coisa tão legal se torna tão perigosamente legal que você não consegue mais viver sem ela e não percebe?

Eu não consigo me levantar de um tombo da vida ou celebrar a própria sem a minha adrenalina emocional, em doses altas pra conseguir o efeito desejado. E a tua droga, qual é?

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