tem uns meses que uma pessoa me falou, numa conversa bem despretensiosa, que o facebook junta quem tá longe e afasta quem está perto. não matutei muito a respeito (ou pensava que não estava matutando). mas hoje, sentada na cadeira de escritório que fica na frente do meu pc de tela grande, resolvi navegar pelo facebook no seu estado inicial, por assim dizer.
e fazendo uns ajustes que não costumo fazer no celular ou no tablet, organizei pra ver as postagens por suposta ordem cronológica. e não consegui ficar mais que meia hora rolando a barra. o que me trouxe N reflexões.
a primeira é um pouco assustadora, pois já há muitos anos não vejo TV aberta, não acompanho notícias em qualquer veículo de informação e acabava usando somente o fb e a fala das pessoas que encontro diariamente pra saber das coisas... bem. não vou mais olhar o fb. está muito, muito parecido com os noticiários que larguei de mão por cansaço. estava exausta. da tragédia. da miséria. já bastava pra mim passar a tarde toda participando desse tipo de acontecimento através da vida dos pacientes. e então me assusto pensando o quanto ficarei obsoleta em pouquíssimo tempo. sem saber o que se passa no mundo. já não sei mais quem é o técnico do santos, quem é o ministro da economia ou onde está chovendo no país. não sei se ano que vem terá eleições nos eua ou quanto está custando um euro. não sei o que os adolescentes estão descobrindo como som foda ou que tipo de roupa estão usando pra beber no bar. aliás, nem sei se as pessoas ainda vão no bar. quase me sinto como meu avô que ainda reclamava dessa cantora nova que tem por aí, essa tal de elis regina que grita demais. estou desinformada.
a segunda reflexão tem a ver com o que me levou a isso. andava tão cansada dessas coisas todas de vibe tão negativa que fugi. sim! eu fugi. fugi dessa realidade insuportável e cansativa onde ninguém gosta de ninguém. de bicho, de planta, de gente. eu, que sempre tinha tido dentro de mim uma fibra questionadora de tudo e todos... fugi! não quis mais. não quis mais saber, pra não ter que fazer nada sobre isso. porque acabaram minhas forças e talvez até meus recursos. mas isso também pesa. me pesa o peito saber que há muito que se fazer. e eu não tô fazendo nada.
a terceira coisa que reflito é sobre o preço que me será cobrado ali na frente. o preço do isolamento. e, que sempre quis estar em meio ao caos que transforma, penso quando estarei no quintal da minha casa cheia de cachorros e gatos com varanda na frente do mar... eu não consigo me reconhecer naquela de 20 anos atrás. eu quero só o eco dos meus pensamentos. preguiça de trocar. de debater. de compartilhar. estou há quase três meses sem escrever. isso é alarmante pra mim...
não sei bem que tom devem ter essas palavras... não consigo ainda definir o que quero dizer com elas. estou desencantada da vida? ou das pessoas? por outro lado, por que há anos atrás era uma pessoa tão angustiada e hoje experimento paz em quase todos os momentos da minha vida?
será que estou colocando em prática a máxima verdadeira que nos ensina há anos que ignorância é felicidade?
e voltando à fala do meu interlocutor naquela noite de vento fresco e maresia, sim... me sinto próxima das pessoas que me são caras através do whatsapp e do facebook. consigo falar com elas tão logo me aperta a necessidade, a vontade. me comunico através de palavras escritas, faladas, ouvidas. se o tempo permite até mesmo posso vê-las em tempo real. talvez só falte o cheiro.
mas as pessoas que estão fisicamente próximas a mim, através desses mesmos canais ficam um pouco estranhas. por vezes, não consigo juntar aquela que encontro todos os dias com aquela que posta (ou reposta, e isso que é foda) algo X ou Y no fb.
talvez, por fim, eu tenha perdido o interesse na vida do outro de forma drástica e surpreende pra mim. eu sempre li porque queria saber da vida dos outros. escrevi porque queria contar sobre a minha vida. me tornei psicóloga pela curiosidade de uma boa história. escolhi as pessoas da minha vida tão mais excitantes eram suas escolhas e causos e experiências.
e hoje, escrevo aqui no fb mesmo, mas pensando se realmente não deveria encerrar minha conta nessa rede... a ponderar...
Fevereiro
Há 17 anos


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