Minhas loucuras passadas

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Falo muito, sou pequena. Reclamo horrores e sou briguenta. Pinto o cabelo de tempos em tempos. Me visto de acordo com meu humor, sou gulosa demais. Gosto de ser casal e ser amiga. Adoro escrever de tudo, cartas e histórias. Amo as artes todas, inclusive aquelas que não consigo fazer. Sou a favor das diferenças, sempre. Olhos castanhos, unhas pequenas. Tímida demais pro meu gosto.

sábado, 15 de novembro de 2014

A farda

tava ali no monte carlo comendo meu salmão de sexta feira e pensando no meu plantão quando entraram dois pms. pra minha satisfação, já estavam usando a boina que substituiu os horrorosos bonés cinzas. um deles foi ao banheiro e o outro ficou do lado da porta. e me pus a pensar...
um dia, eu queria ser das armas ou da polícia. na verdade, pensava que poderia ser da civil ou da federal. mas ainda que passasse naquele teste físico, tem uma barreira quase intransponível pra mim: eu não sei dirigir. e o trânsito me dá pânico.
mas enquanto eu divagava, reparei que os dois caras que saíram do banheiro enquanto o pm estava na porta baixaram a cabeça pra ele. ok, um cumprimento qualquer acontece na porta do banheiro. mas o gesto parecia carregado de medo. e não de respeito, como deveria ser; e como deveria ser respeitoso qualquer cumprimento em qualquer situação social: respeitando a presença de outro ser humano, ainda que fardado (ou uniformizado).
e fiz um link rápido com uma situação vivida há poucos dias... eu chegava no ambulatório onde trabalho e já havia um xabu em curso. não passa um dia sem que haja um enxame qualquer e pra muitos deles a solução é chamar a psicóloga. de qualquer maneira, explicava para a paciente que era impossível liberar uma medicação que ela deveria tomar todos os dias e que não era retirada há mais de 5 meses sem nova avaliação médica. e ela me disse: você sabia que você é muito chata? eu: veja, meu trabalho é conversar com você sobre suas dificuldades em aderir ao tratamento da aids, caso você ache que não precisa conversar, marco sua consulta e você segue nosso protocolo, retomando suas retiradas mensais. ela: tá, tá, vou embora, não quero mais nada. e ao sair olhou para a porta da minha sala. e lá dizia: 7, PSICOLOGIA. e ela, assustada e constrangida: a senhora é psicóloga? eu: sim, você pensou que falava com quem aqui na sala da psicologia? ela: meu deus, chamei a doutora de chata, desculpa, eu não sabia, que vergonha, pensei que fosse uma funcionária... e foi saindo, com a cabeça baixa, tomada pelo susto, e talvez pelo medo da consequência da sua atitude.
e, pra além de toda reflexão que já fiz aqui sobre status profissional e escolhas estéticas, ficou pra mim aquela frase: pensei que era uma funcionária. que significa isso? significa que funcionários são menos que doutores? e o imaginário é poderoso porque de fato não sou doutora. minha titulação não é essa como psicóloga e também não galguei os outros dois degraus acadêmicos que me fariam doutora. mas trabalho num consultório e me visto ocasionalmente de branco. é o que basta.
e o pm... o pm estava ali para almoçar. junto com o outro designado para a ronda naquele dia. porque policial come, assim como psicólogo também. não me arrisco a dizer em que lugar da profissão estavam pois vestiam coletes que escondiam a patente. mas pareciam ter mais ou menos a minha idade. talvez tivessem filhos que optei em não ter. provavelmente a postura de quem ficou na porta é algo ensinado na academia e de fato necessário na conduta do dia a dia assim como coloco luvas descartáveis e prendo meus cabelos quando preciso fazer um teste rápido de hiv.
e pensei que o que logo definimos dentro de nós sobre um policial militar de quase dois metros de altura e um bíceps bem maior que a minha perna (sou uma mulher de tríceps mas não dava pra ver essa parte...) armado e vestido com um colete à prova de balas dentro de um restaurante ao meio dia é das duas, uma: devo ter medo de que esteja acontecendo algum distúrbio ou devo ficar tenso porque a polícia nunca traz de fato segurança. a presença deles parecia destoar do ambiente e desconcertar quem saía do banheiro. tanto que baixavam excessivamente a cabeça como se ali não estivesse um ser humano. estivesse algo que se deva temer.
reconheço que no caso da polícia, o buraco é tão, mas tão mais embaixo que precisarei de mais 10 posts pra falar disso. mas no que toca à questão da autoridade conferida pelo uniforme e o status conferido pela profissão, estamos impregnados de preconceitos. os músicos que vemos na rua com seus cases nas costas são vagabundos. os policiais que vemos fardados são monstros perigosos e truculentos, profissionais de saúde trajando branco são deuses decididores dos destinos dos leigos. 
e penso que estamos todos tão "não vistos". pensando nos militares e policiais que conheci na minha caminhada, pensando na confusão que causo nos meus pacientes pelos meus desajustes estéticos, pensando que somos tão mais do que a embalagem... concluí que é urgente que a gente dedique algumas horas da nossa vida pra conhecer a coisa em si e evitar a repetição eterna do que já não faz mais sentido (ou nunca fez de verdade).
e, assim... o cara era um gato. sempre tive uma queda pelas fardas...

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