depois de um dia de estresse mais físico que mental, eu sento no bar. 40 graus na cabeça de cada um de nós todos os dias de janeiro testam os limites. ando sofrendo, tentando respirar, dormir, descansar, desinchar. ainda muito bem que toda sexta tem um bar. quando sento sozinha numa mesa, bebo devagar, olhando em volta de mim num movimento de reconhecimento e estranhamento que pode durar uma madrugada.
acaba de ir embora um casal. desde a chegada, observo, tentando contar essa história que nunca vou saber. ou quase nunca.
a moça despretensiosa num vestido básico preto e havaianas, deixando livres os pés. e só os pés pareciam livres...o calor intenso contrastou o tempo todo com a expressão distante enquanto todos os outros mortais derretiam. e até aí , eu não tinha percebido a barriga. a moça grávida, cabelos presos como é preciso nesses climas desesperadores, longe do banquinho, do violão. as unhas vermelhas sobre o filho, numa conversa secreta em língua desconhecida.
eu falei que tinha um moço na cena? talvez tenha mencionado ser um casal. mas ela era daquelas mulheres improváveis, talvez só por conta do filho crescendo devagar e determinado. e improvável, de distante passou a aborrecida. e o moço era muito pouco, com a chave do carro impaciente, a roupa inadequada, perdido, sem nenhum entendimento daquela conversa que se dava e que, se corajoso ele fosse, mergulharia até o som ser silêncio.
porque mulheres improváveis precisam de homens destemidos. e eles não andam por aí...
Fevereiro
Há 17 anos


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