Minhas loucuras passadas

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Falo muito, sou pequena. Reclamo horrores e sou briguenta. Pinto o cabelo de tempos em tempos. Me visto de acordo com meu humor, sou gulosa demais. Gosto de ser casal e ser amiga. Adoro escrever de tudo, cartas e histórias. Amo as artes todas, inclusive aquelas que não consigo fazer. Sou a favor das diferenças, sempre. Olhos castanhos, unhas pequenas. Tímida demais pro meu gosto.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Presente de sorte

 A vida dá muitas voltas e as pessoas voltam sem perceber. Teve uma vez que eu conheci um menino improvável. Mais uma festa daquelas que Tharcilla me arrastou e que me rendeu história. Naquela época, eu tinha 20 anos e amanhecer o dia na rua, sem ressaca já que a bebida não pegava nunca era trivial. Mas amanhecer o dia no Morro da Cruz, meio perdida, com o menino do bar no meu lado... Não acontecia o tempo inteiro. O curioso era que a história não tinha fim, eu ia no Morro da Caixa, ele vinha na Pracinha do Catarinense, a gente ia no shopping. Ia no samba, junto, separado, e pego com a boca na botija também. Os tempos corriam depressa e tinha muita boca pra beijos que não podiam esperar.
Teve mágoa também. Com 20 anos (e às vezes com 30 também), a gente precisa ocupar todos os espaços, nada pode prescindir da nossa presença, assim julgamos, desavisados.
E tinha samba demais pra fazer, pouca roda... Foi assim, um ano, dois e três. E nunca era de verdade. Mas era sempre intenso. E nunca inteiro.
E tinha decepção também, e um pouco de jogo escondido, e um pouco de fantasia demais.
E mais mágoa no caminho quando muitas vezes demos as costas pro outro porque no vizinho a grama parecia mais verde e fazia brilhar mais o olho em manhã de sol.
E, sem aviso, a gente se perdeu. Porque a gente nunca pensava que as coisas iam mudar de hora pra outra, nunca imaginava que o futuro carregaria a gente pra tão longe, porque a gente pensava que teria tempo de terminar um com o outro aquilo que nunca tinha sido.

Eu digo que tenho presentes de sorte nessa vida.
E um deles me chegou. A oportunidade discreta de terminar. Sem forçosamente começar de novo, mas com toda possibilidade de embarcar numa história qualquer que esteja na mesa no momento.
13 anos depois, quem volta é o homem mais marcado, com um bocado de desventuras pra contar, com porte de corredor de tribo nandi, preto, sério, forte. E eu pude desfiar quem eu sou e até mesmo quem eu era em tarde calma de sábado na Ponta de Baixo. Uma história atrás da outra em papel de pão, porque é assim que se faz em Floripa, e eu ia me entregando pro passado carente de pingos nos Is.

E agora estamos aqui. O espaço ficou enorme porque com o tempo o mundo cresce em quilômetros e diminui em relações estreitas, de perto. O outro lado do mundo é aqui na minha casa.
E saudade não liga pra essas coisas. Aparece quando precisa de uma palavra que diga de uma coisa que se sente perto do estômago, na superfície da pele.
Eu me pergunto, sem pressa de responder como em outros tempos, o que vou fazer com isso. Eu não sei. Antes de mergulhar no preto mais uma vez, a resposta não se faz.
E minha intenção não é correr, é voar. Não pela velocidade, mas pelo ar que te falta quando você precisa aprender como tragar o tempo. Fazer dele todo seu, todo dentro, onde um minuto tem o tanto certo pra deixar cair a lágrima ou suspirar em serenidade ou mesmo morrer um pouquinho em êxtase.

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