Como sempre reclamo (e reclamar é essencial em mim - nos dias em que acredito em essência...), tenho lido muito pouco. Mas nessa manhã ensolarada e descansada de domingo, terminei o segundo livro que li esse (e nos outros) ano.
Por coincidência, os dois livros foram lidos numa língua que não é a minha, mas que eu me sinto bem falando e estudando. Meu inglês já tá de bom tamanho, queria um mecanismo osmótico que fizesse meu francês assim pois hoje ele não passa de um je suis qualquer coisa que não diz muito.
Enfim, as palavras que li no ônibus, no consultório, na cama, na praia me colocaram por horas na vidinha que eu queria viver mas não vivo. E me fizeram ainda perguntar: será que não vivo?
Quando me presenteei com a biografia do Slash e as circunstâncias me presentearam com a presença dele a 10 metros de distância, voltei aos anos de 1990, os últimos dez de um tudo que já conhecíamos. A vida na capital disfarçada na cidade pequena, sem recursos pra alcançar o mundo lá fora, tanta coisa acontecia e a gente nem viu. Sair da infância pra conhecer coisas novas que já estavam fincadas no mundo há gerações, mas precisam voltar pra fazer crescer todas as crianças que aí estão. Ter 13 anos e querer coisas que os pais (porque também muito tradicionais) não podiam mais apresentar. Sem internet, com canais de TV aberta voltados pra família brasileira do arroz, o feijão e da novela, com um único centro de comércio na cidade, tinha um mundo acontecido e acontecendo que não chegava no meu quarto. Gente da minha idade, ou um pouco mais velha, em outros lugares, acessava fácil uma história que eu nem imaginava que existia. Daí, eu resolvi me instruir.
Bom, cada um faz as coisas de uma determinada maneira, eu aprendi que deveria ler, buscar informação e estudar o assunto quando quisesse saber como algo funciona. E foi o que fiz. Minha mesada pagou por 10 meses a fio uma série de vídeos "A história do Rock" e o que sobrava foi sendo gasto aos poucos na única loja que podia conseguir vinis e cds que não eram trilhas sonoras de novelas. A Roots Records era assim ali no ARS, caro pro meu orçamento, mas valia a pena. A MTV chegou e me contou o resto.
E assim, estava eu pra sempre apaixonada pelo guitarrista de quem era impossível se ver o rosto. Tudo nele era o que eu queria ser. E, hoje, lendo a história que ele escreveu, me pus a pensar que nem todo mundo vai virar doutor ou rockstar, mas que é preciso ter o gosto do que se quer ser. E eu não sei o quanto me joguei realmente.
Eu não fui aprender a tocar guitarra, até porque as notas musicais não são minhas amigas, eu já torturava minha professora de piano o suficiente. Mas hoje penso o tempo inteiro... Por que mesmo não estou cantando? E isso fica sempre muito claro pra mim quando me deixo levar pelas palavras que contam as histórias dos outros.
A cada página que cobriu 40 anos da vida do Slash, eu descobria algumas poucas palavras novas que o dicionário me apresentava melhor e ia me imaginando pelas ruas de Los Angeles, cidade na qual nunca estive, no final dos anos 1980, pensando sempre "será que eu seria uma dessas meninas fumando e bebendo cedo, sem muitas restrições a pretendentes, carregando um case ocasionalmente e terminando a noite num quarto qualquer porque minha casa ficou muito longe pra voltar?"
Não tenho essa resposta. Mas minha vida me responde quando me coloca numa outra cena, 10 anos depois, aos 16 ou 17 anos, Florianópolis, uma outra vibe menos rock and roll, mas ainda pulsante, fumando e bebendo cedo e tudo o mais. Dentro do possível, entre Bob Marley e Deep Purple, tentando descobrir o mundo que já tinha passado mas que continuava sendo obrigatório pra essa fase da vida de qualquer menina como eu.
Quando fechei essa história vendo ali um Slash de 45 anos, ainda em condições de povoar meus sonhos de adolescente falados em inglês e roupa nenhuma, eu senti um pouco de tudo. Uma felicidade genuína que não sentia há mais ou menos 4 anos da minha vida. Um pouco de confusão ao perceber que não tenho certeza se fiz demais ou de menos, se cheguei onde queria ou se me rendi ao mundinho como ele é, empreguinho, continha, transinha, comidinhas. Senti uma vontade de contar pra todo mundo que o suor do Slash quase caiu na minha cara ainda que isso não signifique nada pra ninguém. Senti vontade de falar com ele, escrever uma carta, fazer papel de idiota prum homem comum que só trata de existir no mundo com as drogas, a esposa, os filhos, a grana, o trabalho. E quis subir no palco. E quis ser alguém que faz alguma coisa que poucos fazem.
E isso tudo me acompanhou pelas páginas da história da Liz Gilbert que terminei hoje. Uma mulher que se perdeu como eu e como tantas outras. Eu volto a dizer que somos um pouco mais do mesmo o tempo inteiro. Provavelmente, as adolescentes californianas de 1988, bêbadas e enlouquecidas taking Axl and Slash to the paradise city noite após noite de sexo inseguro são as mesmas que frequentaram a frente do palco do Dazaranha na Ilha da Magia (eterna) de 1994 e são as mulheres que hoje terminam seus casamentos em desespero por volta de 2002 ou 2009 e saem pelo mundo comendo, rezando e amando. Ou fazem filhos lindos que tirarão seu sono pelo resto da vida.
E vendo a busca da Liz, eu pensei de novo: será que me joguei o suficiente? A mulher se fodeu, sofreu que nem os normais e os loucos, em doses cavalares de dor, viajou o mundo chorando e terminou com um cara 17 anos mais velho, transformada em mulher de verdade. E eu?
E eu, que nem cantora pros holofotes do palco, nem amante madura viajada pelos quatro cantos do mundo me tornei? Sou quem eu quero ser? Nas quatro paredes da minha favelinha vertical, fazendo todos os dias o mesmo caminho, afogada por processos de capas brancas da Prefeitura Municipal de Santos, emagrecendo e engordando, cheia de orgasmos mas experimentando pouca intimidade. Será que depois de tanta loucura de drogas, muito sexo, muita fama, o que faz o Slash no domingo de manhã é lavar o carro com os filhos e reclamar com a Perla que amanhã é segunda e ele tem reunião com o cara da gravadora e tem que gravar aquele solo que tá encalacrado? Será que depois de tanta normalidade de um casamento com grana e carreira novaiorquina de sucesso, o que faz a Liz Gilbert no domingo de manhã são malas pra pegar o vôo pra Bali pra passar uma semana com o marido brasileiro e depois se apresentar numa feira de livros na Austrália (com ele) e depois voltar pra Nova Iorque (sozinha) pra entregar a coluna do jornal em reunião com a editoria?
E eu? Eu não sei. Cada dia que passa sei menos e também não me inclino a la Cazuza a pagar a conta da Kátia antes de saber quem eu sou. Porque eu preciso saber.
Porque eu quero saber.
Porque eu preciso ter 33 anos e ser um pouco de Slash e um pouco de Liz Gilbert pra continuar respirando. Porque tenho me sentido sufocada em alguns momentos. Porque tenho muitas perguntas e respostas que se desenham e, quando vejo os contornos, corro assustada pra minha cama paga em 10 prestações.
Porque eu me lembro de mim mais nova e lendo muitos livros por ano e tendo cada vez mais perguntas e buscando as respostas e aos poucos fazendo aniversários e me esquivando dos livros, das perguntas e das respostas. Tendo medo.
Medo paralisante de perceber algo que já sei aqui dentro. Que isso tudo não é o bastante. Ou não é o que isso tudo deve ser.
Por coincidência, os dois livros foram lidos numa língua que não é a minha, mas que eu me sinto bem falando e estudando. Meu inglês já tá de bom tamanho, queria um mecanismo osmótico que fizesse meu francês assim pois hoje ele não passa de um je suis qualquer coisa que não diz muito.
Enfim, as palavras que li no ônibus, no consultório, na cama, na praia me colocaram por horas na vidinha que eu queria viver mas não vivo. E me fizeram ainda perguntar: será que não vivo?
Quando me presenteei com a biografia do Slash e as circunstâncias me presentearam com a presença dele a 10 metros de distância, voltei aos anos de 1990, os últimos dez de um tudo que já conhecíamos. A vida na capital disfarçada na cidade pequena, sem recursos pra alcançar o mundo lá fora, tanta coisa acontecia e a gente nem viu. Sair da infância pra conhecer coisas novas que já estavam fincadas no mundo há gerações, mas precisam voltar pra fazer crescer todas as crianças que aí estão. Ter 13 anos e querer coisas que os pais (porque também muito tradicionais) não podiam mais apresentar. Sem internet, com canais de TV aberta voltados pra família brasileira do arroz, o feijão e da novela, com um único centro de comércio na cidade, tinha um mundo acontecido e acontecendo que não chegava no meu quarto. Gente da minha idade, ou um pouco mais velha, em outros lugares, acessava fácil uma história que eu nem imaginava que existia. Daí, eu resolvi me instruir.
Bom, cada um faz as coisas de uma determinada maneira, eu aprendi que deveria ler, buscar informação e estudar o assunto quando quisesse saber como algo funciona. E foi o que fiz. Minha mesada pagou por 10 meses a fio uma série de vídeos "A história do Rock" e o que sobrava foi sendo gasto aos poucos na única loja que podia conseguir vinis e cds que não eram trilhas sonoras de novelas. A Roots Records era assim ali no ARS, caro pro meu orçamento, mas valia a pena. A MTV chegou e me contou o resto.
E assim, estava eu pra sempre apaixonada pelo guitarrista de quem era impossível se ver o rosto. Tudo nele era o que eu queria ser. E, hoje, lendo a história que ele escreveu, me pus a pensar que nem todo mundo vai virar doutor ou rockstar, mas que é preciso ter o gosto do que se quer ser. E eu não sei o quanto me joguei realmente.
Eu não fui aprender a tocar guitarra, até porque as notas musicais não são minhas amigas, eu já torturava minha professora de piano o suficiente. Mas hoje penso o tempo inteiro... Por que mesmo não estou cantando? E isso fica sempre muito claro pra mim quando me deixo levar pelas palavras que contam as histórias dos outros.
A cada página que cobriu 40 anos da vida do Slash, eu descobria algumas poucas palavras novas que o dicionário me apresentava melhor e ia me imaginando pelas ruas de Los Angeles, cidade na qual nunca estive, no final dos anos 1980, pensando sempre "será que eu seria uma dessas meninas fumando e bebendo cedo, sem muitas restrições a pretendentes, carregando um case ocasionalmente e terminando a noite num quarto qualquer porque minha casa ficou muito longe pra voltar?"
Não tenho essa resposta. Mas minha vida me responde quando me coloca numa outra cena, 10 anos depois, aos 16 ou 17 anos, Florianópolis, uma outra vibe menos rock and roll, mas ainda pulsante, fumando e bebendo cedo e tudo o mais. Dentro do possível, entre Bob Marley e Deep Purple, tentando descobrir o mundo que já tinha passado mas que continuava sendo obrigatório pra essa fase da vida de qualquer menina como eu.
Quando fechei essa história vendo ali um Slash de 45 anos, ainda em condições de povoar meus sonhos de adolescente falados em inglês e roupa nenhuma, eu senti um pouco de tudo. Uma felicidade genuína que não sentia há mais ou menos 4 anos da minha vida. Um pouco de confusão ao perceber que não tenho certeza se fiz demais ou de menos, se cheguei onde queria ou se me rendi ao mundinho como ele é, empreguinho, continha, transinha, comidinhas. Senti uma vontade de contar pra todo mundo que o suor do Slash quase caiu na minha cara ainda que isso não signifique nada pra ninguém. Senti vontade de falar com ele, escrever uma carta, fazer papel de idiota prum homem comum que só trata de existir no mundo com as drogas, a esposa, os filhos, a grana, o trabalho. E quis subir no palco. E quis ser alguém que faz alguma coisa que poucos fazem.
E isso tudo me acompanhou pelas páginas da história da Liz Gilbert que terminei hoje. Uma mulher que se perdeu como eu e como tantas outras. Eu volto a dizer que somos um pouco mais do mesmo o tempo inteiro. Provavelmente, as adolescentes californianas de 1988, bêbadas e enlouquecidas taking Axl and Slash to the paradise city noite após noite de sexo inseguro são as mesmas que frequentaram a frente do palco do Dazaranha na Ilha da Magia (eterna) de 1994 e são as mulheres que hoje terminam seus casamentos em desespero por volta de 2002 ou 2009 e saem pelo mundo comendo, rezando e amando. Ou fazem filhos lindos que tirarão seu sono pelo resto da vida.
E vendo a busca da Liz, eu pensei de novo: será que me joguei o suficiente? A mulher se fodeu, sofreu que nem os normais e os loucos, em doses cavalares de dor, viajou o mundo chorando e terminou com um cara 17 anos mais velho, transformada em mulher de verdade. E eu?
E eu, que nem cantora pros holofotes do palco, nem amante madura viajada pelos quatro cantos do mundo me tornei? Sou quem eu quero ser? Nas quatro paredes da minha favelinha vertical, fazendo todos os dias o mesmo caminho, afogada por processos de capas brancas da Prefeitura Municipal de Santos, emagrecendo e engordando, cheia de orgasmos mas experimentando pouca intimidade. Será que depois de tanta loucura de drogas, muito sexo, muita fama, o que faz o Slash no domingo de manhã é lavar o carro com os filhos e reclamar com a Perla que amanhã é segunda e ele tem reunião com o cara da gravadora e tem que gravar aquele solo que tá encalacrado? Será que depois de tanta normalidade de um casamento com grana e carreira novaiorquina de sucesso, o que faz a Liz Gilbert no domingo de manhã são malas pra pegar o vôo pra Bali pra passar uma semana com o marido brasileiro e depois se apresentar numa feira de livros na Austrália (com ele) e depois voltar pra Nova Iorque (sozinha) pra entregar a coluna do jornal em reunião com a editoria?
E eu? Eu não sei. Cada dia que passa sei menos e também não me inclino a la Cazuza a pagar a conta da Kátia antes de saber quem eu sou. Porque eu preciso saber.
Porque eu quero saber.
Porque eu preciso ter 33 anos e ser um pouco de Slash e um pouco de Liz Gilbert pra continuar respirando. Porque tenho me sentido sufocada em alguns momentos. Porque tenho muitas perguntas e respostas que se desenham e, quando vejo os contornos, corro assustada pra minha cama paga em 10 prestações.
Porque eu me lembro de mim mais nova e lendo muitos livros por ano e tendo cada vez mais perguntas e buscando as respostas e aos poucos fazendo aniversários e me esquivando dos livros, das perguntas e das respostas. Tendo medo.
Medo paralisante de perceber algo que já sei aqui dentro. Que isso tudo não é o bastante. Ou não é o que isso tudo deve ser.


Um comentário:
já encontrei o Slash num banheiro de balada , rs, London,london...
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