Minhas loucuras passadas

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Falo muito, sou pequena. Reclamo horrores e sou briguenta. Pinto o cabelo de tempos em tempos. Me visto de acordo com meu humor, sou gulosa demais. Gosto de ser casal e ser amiga. Adoro escrever de tudo, cartas e histórias. Amo as artes todas, inclusive aquelas que não consigo fazer. Sou a favor das diferenças, sempre. Olhos castanhos, unhas pequenas. Tímida demais pro meu gosto.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Morte

Hoje, eu fui num velório sozinha. Tenho 31 anos e nunca tinha ido a um velório sozinha. Isso é curiosíssimo dado que me pai morreu quando eu tinha 13 anos. Parei numa sala antes, na morte alheia, pra me preparar. Minha história com a morte tem poucos eventos marcantes. Recusei em participar da morte do meu pai. A última lembrança que tenho dele é se afastando no Fusca azul calcinha que a gente tinha pela Rua São Francisco logo depois de deixar a mim e meu irmão na porta da escola. E quis ficar com ela. Porque as lembranças eram já mesmo meio confusas sem caixões e covas. Anos mais tarde, perdi um guri da galera. Ele não era meu amigo, mas era muito, muito próximo de uma amiga muito querida, que sofreu o diabo. Ele foi levado pelas ondas da Praia Mole, pras quais a gente nunca está mesmo preparado... Fui até o cemitério do Itacorubi na hora do enterro que aconteceu numa manhã branca. Não cheguei perto. Não deu.

Eu chorei meu pai mais ou menos com 19 anos. Quando a água começou a chegar na bunda, senti que era hora de pensar nisso. Eu tava crescendo, tentando amadurecer e vivendo aquela soltura toda que vive uma menina sem pai. Porque pai é ciumento, é controlador. Pelo menos, os pais das minhas amigas eram. Minhas regras eram maternas, mas isso é outro assunto pra outro post. Terminei de chorar meu pai uns anos mais tarde. E... Casei com meu pai... Como explicava Freud. Mas isso também é outro post.

Quando morreu o pai do meu amigo irmão, fui com meu então marido nesse enterro. Era hora de cumprir com esse evento social. É um evento. Como os aniversários, as bodas e os chás. As formaturas, as despedidas. E lá, eu chorava. Mesmo. As pessoas me davam pêsames como se eu fosse da família de tão envolvida que eu tava na coisa toda. E era isso mesmo: me dava eu a oportunidade de enterrar meu pai. Mas eu não estava só.

Hoje, eu estava. Chovia muito no Memorial. E o Memorial é sempre lindo. Cemitério vertical, bonito mesmo, com o morro guardando os mortos e suas flores. Um lugar em Santos onde se escutam pássaros... Meu constrangimento não era por conta de dizer "eu sinto muito por vocês"... Mas porque eu sempre me lembrava o quão constrangida eu ficava ao receber os pêsames pelo meu pai. Eu tinha 13 anos, nada contrita... Não me sentia à altura da situação toda... Fiz meu melhor hoje. Vivenciei. Fui até o corpo, olhei bem pras flores do campo. Falei e abracei quem de direito, e parti.

E assim as coisas e pessoas têm que passar, mas eu não sei deixar nada pra trás...

Um comentário:

*BUENO* disse...

Sim, Andrea.

Com certeza, você fez o seu melhor. E somos todos gratos por você e por sua sensibilidade.

Lembre-se: morte e vida são uma coisa só, as pessoas é que costumam separá-las.